The Virgin Spring

Páscoa! Na quinta-feira e sexta-feira santas vi Through a Glass Darkly, The Virgin Spring e Winter Light, do saudoso mestre Ingmar Bergman. Por acaso, sem eu o saber, claro, para a minha surpresa, os 3 filmes se passam nos dias da Paixão. (que coincidência?)

Eu sabia que Through a Glass Darkly, Winter Light e The Silence são reconhecidos como a Trilogia do Silêncio (de Deus). Mas, até onde eu sei, é uma noção criada por críticos do cinema. Eu vi The Silence em outra época e infelizmente não me lembro muito dele. Enfim! Vou me permitir e me divertir e dizer que esta é a trilogia da Páscoa.

Assisti esses três filmes citados no caput e foi uma delícia todos eles (dou a supremacia a The Virgin Spring e por isso falarei mais a fundo sobre ele, ou ela)

The Virgin Spring é um tesão. Também abarca a Páscoa de uma família, mas bem diferente da de Through a Glass Darkly. Agora estamos em algum lugar da Suécia, em algum tempo da Idade Média, onde o Cristianismo já estava estabelecido mas com vestígios das antigas religiões nórdicas (presente em algumas pessoas). O núcleo familiar é formado pelo Pai, Mãe e Filha (A Virgem). Eles vivem em uma fazenda onde eles tem 3 a 5 empregados que compartem a mesa com eles – nos dá a idéia que são “irmãos”. Uma das empregadas é a Rapariga rebelde,  que é a antítese da Virgem – ela está gravida de um pai desconhecido e reza aos deuses “pagãos”, morena (apenas um sinal da contradição), rejeitada por todos e desconfiada – e a Virgem é o oposto – virgem, cristã, loira, amada e ingênua. Na manhã em questão – Sexta-feira santa – a virgem não vai à missa pois estava cansada da festa de ontem (ela não é tão santa afinal) e o Pai pede que ela vá à igreja levar as velas. A cena onde ela encontra o pai em casa nos revela que ela tem o pai sob seu encanto, e a mãe, que também ama sua filha, mostra um ciúmes do pai e da filha, em relação a ambos -mas nada que afete o desenrolar da história.

A virgem e a rapariga saem juntas para levar a vela para a igreja. Uma pelo dever religioso e familiar, e a outra por obrigação (ambas serventes). Elas fazem uma parada na casa de um velho da montanha onde a Rapariga fica e a Virgem continua sozinha… O velho da montanha “reconhece” a Rapariga como uma pagã, como uma irmã da natureza, e tenta abusar dela. A Virgem continua sua pequena viagem até a igreja e no caminho encontra 2 ladrões e 1 menino (supostamente 3 irmãos). Ela aceita a companhia deles ingenuamente, enquanto a Rapariga que fugiu da casa do velho, assiste a cena inteira do encontro da Virgem com os ladrões. A Natureza fala alto nos filmes de Bergman e aqui não é exceção. Os dois ladrões estupram a Virgem em uma cena tão forte quanto (acho que até mais) a cena de estupro em Irreversível do Gaspar Noé. Digo isso porque Bergman não mostra tanto quanto mas consegue provocar a mesma aflição (em mim, mais forte ainda). O impulso do ladrão sem lingua está consumado. Gozou. Agora, não obstante, sem saber o que fazer, ele a mata… Como dois urubus despem ela e levam as roupas dela (lindas e especiais, mas agora não lembro se foi a mãe ou ela mesma que pediu pra usar) e de repente, começa a nevar. A Rapariga viu e não fez nada. Como ela confessa depois, não teve forças, não quis. Os pais agora estão tentando manter a calma com a filha não voltar depois de uma, duas noites. O frio se intensifica, o que leva aos ladrões à fazenda da vítima… Bons cristãos que eles eram, e tendo em vista um menino indefeso no meio deles, dão abrigo aos ladrões e oferecem um lugar na mesa para eles e os alimentam. O menino sabe em que mesa estão comendo e fica mortificado. A janta transcorre bem… O ladrão que fala tem lábia e põe panos quentes no clima carregado. O Pai até oferece trabalho para eles. Todos vão dormir…

O menino dá um berro curto e alto. A Mãe escuta e vai onde os ladrões estão dormindo (onde comem) e olha o menino. Vê seu lábio com sangue. O ladrão-lábia tenta ganhar as graças da Mãe dando pra ela um presente… Que é o vestido da filha. Com uma cara impassível e resignação (uma cena linda e aqui tensão começa a escalar) ela sai e tranca os ladrões. Chama o seu marido e ele vai com sua adaga enfrentar os ladrões e mata os dois. O menino leva uma grande surra e é realmente tocante a mãe chegar perto dele com uma atitude religiosa, piedosa, e faz carinho nele – inocente, vítima do mundo.

A Rapariga confessa o que viu e leva a todos ao local da atrocidade…

No local, o Pai se “rebela” contra Deus, dizendo que não O entende, para no próximo instante pedir perdão e jurar por tudo que é mais sagrado que ali, no local onde sua filha querida morreu, ele vai construir uma igreja em Seu nome. Eles movem a Virgem e de onde seu corpo jazia morto, uma fonte, um manancial, começa jorrar dali. Todos olham maravilhados… e acaba.

Elogios para o filme eu tenho 1.000.000… Está no nível de O Sétimo Selo. Eu ouso dizer que é muito mais simbólico que O Sétimo Selo, mas isso não faz ele ser melhor.

O filme começa com uma exposição dos valores internos do filme: Rapariga / Virgem, Odin / Jeová, Mãe / Pai, Senhores / Serventes. Tudo isso vive e convive dentro da mesma casa. A filme abarca a totalidade dos opostos. Ouso dizer que o drama começa com a situação incestuosa em que a casa vive: a filha é apaixonada pelo pai e vice-versa. Ele ordena ela a ir para a Igreja levar as velas. Poder-se-ia dizer que é uma oferenda a Deus (o que acaba sendo).  Ambas as mulheres são atacadas pelo sexo masculino. A Rapariga foge pois não é ingênua, também porque seu atacante não tinha nem a metade do vigor nem a quantidade de braços que atacaram a Virgem. Esse primeiro atentado é uma dica do que está por vir e uma declaração de que na floresta, na natureza, os instintos estão bem vivos, especialmente o sexual – e a violência também. A Virgem encontra seus assassinos e os da boas vindas com tremenda ingenuidade, dá de comer e conversam amigavelmente. Lentamente ela percebe a situação e a música para. Um silêncio horrível toma conta e só escutamos a luta e os sons diegéticos… A Virgem com os dois ladrões remetem diretamente à Cristo na cruz, no meio de dois ladrões. O menino que os acompanha também é outro aspecto da mesma imagem. (Jesus como homem e mulher? Sim, na alquimia a figura de Cristo muitas vezes é concebida como um andrógino.)

O pai recebe os ladrões na sua casa, dá de comer e dá um teto para proteger eles do frio. Um espectador preconceituoso meramente diria que é uma zombaria do ateu-Bergman frente ao cristianismo. Mesmo dentro do drama isso é um absurdo pois foi esse princípio que permitiu, momentos depois, o Pai fazer sua justiça e revelar que o homem cristão, mesmo que cristão, ainda é homem e sua misericórdia tem limites. Deixar eles entrar apenas mostra a compaixão do humano. Não é uma reivindicação cristã. Como também é humano as coisas ruins como o assassínio e o estupro. (não sei de onde vem a associação positiva com a palavra humana onde só as coisas boas são vistas) – depois de o Pai ter matado os dois e deixado o menino inconsciente, a Mãe faz um carinho no menino, demonstrando grande compaixão por ele, triste por esse menino inocente ter que viver, e eventualmente crescer, neste mundo cheio de sofrimentos.

No local onde a Virgem foi violentada e assassinada, o Pai se “rebela” com Deus. O questiona em frente a todos. Tenho que lembrar que, nesse mundo medieval (ainda deve ser assim) Deus e natureza são meio que opostos. Assim como no filme já tem essa oposição, o Pai também se rebela contra a natureza. Quando ele descobre que são os assassinos que estão na sua sala, ele sai e numa cena muito bonita ele mata uma pequena árvore com suas mãos. Ele leva ela para dentro para tomar um banho quente e se preparar para a luta. Do mesmo jeito, ele se rebela com Deus para logo pedir seu perdão e jurar construir ali mesmo uma igreja em Seu nome. Logo, um “milagre” acontece, não se sabe se foi de Deus ou da Natureza, ou de ambos: Nasce um manancial e a Igreja será construída.

Acima eu disse que na família tinha um incesto velado entre o Pai e a Filha (Virgem). Se seguimos a trilha da libido pode ser que fique claro. A chave está na cena do Pai com a Filha. Existe uma fagulha entre eles. Algo que a mãe claramente fica enciumada. A libido aqui sofre uma barragem. Eles não podem continuar pelo tabu do incesto. A libido tem que encontrar sua consumação em outro lugar. A Virgem sai para levar as velas e no caminho, é estuprada e morre. Supostamente a libido se consumou e acabou ali. Mas com a morte ela sofre mais uma barragem. O que a libido faz quando não consegue continuar seu fluxo? Como uma barragem, ela se acumula e retrocede caminhos andados. Os ladrões vão até a casa da Virgem (de onde ela veio). Aqui a verdade aparece, o Pai mata aqueles que estupraram e mataram sua filha, em certos enquadramentos, Pai e ladrão estão tão unidos que não posso deixar de pensar na idéia de que eles eram Um, em certo sentido. Depois de mata-los, eles vão até o lugar onde a libido estancou. Ele vê sua filha morta e briga com Deus. Aqui é o ponto chave. Ele transforma sua própria incompreensão em resignação. Sua energia fura a barreira e se transforma em uma nova vida – uma nova igreja. Eles removem o corpo da filha e voila, a fonte começa a jorrar. Um dos símbolos mais frequentes para representar a libido. (também apontei seu uso em One Flew Over The Cuckoo’s Nest)

Acho que aqui tem uma pista muito importante acerca das origens do cristianismo… Amar o próximo era uma necessidade. Justiça não se fez com a morte dos perpetradores. “Justiça”! Só usando sua energia (libido) para algo construtivo é que a justiça seria feita… Tirando a vida de seu estancamento e deixando-a fluir novamente.

Fora a enorme coincidência (ou não) de que os três filmes se passam durante a Paixão e o fato de que são filmes ‘religiosos’ (ou não, como querem acreditar boa parte dos que viram o filme apenas com a vontade de querer ver algo ateísta pela conhecida fama do diretor), eles são filmes sobre a morte e a ressurreição. Bergman com muito cuidado, apenas solta no meio de algum diálogo que é Páscoa – para não ficar tão óbvio e simplesmente cair no nosso esquecimento – e ao final de 2 noites (ou 3, como eu disse, ele não deixa explícito) as personagens passam por uma transformação e renascem como indivíduos. A maestria do diretor, para mim, fora a direção impecável dele, é de trabalhar com esse símbolos como um verdadeiro mestre.

Acho que o diretor de cinema é como um Magister Ludi, e o cinema é o que mais se aproxima em minha cabeça de um Jogo de Avelórios. (para entender essa parte, leia “O jogo das contas de vidro” do Hermann Hesse)

(escrito em 26/04/2014)

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