The Informer

Post dessa semana é um filme do mestre John Ford: “The Informer”, de 1935. Eu não esperava muito desse filme, sendo que raramente é citada como uma obra-prima de Ford… Mas acho que é uma peça essencial de sua Opus (e uma obra-prima). (spoilers ahead)

A abertura do filme é um tanto criativa. Vemos a sombra de um homem misterioso andando… Sombras de soldados passam e ele ao lado espreitando… Nos passa a idéia de um homem que está vacilando, em um lugar onde luz e sombra digladiam e um território ocupado por militares. O homem termina enfrentado a um semi-círculo de homens encapuzados que apontam o dedo para ele: É julgado.

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Cheguei a pensar e até escrevi no meu caderno “já sabemos o plot, o clima, porque nos interessa ver até o final do filme?” O filme é contado em 1 a 2 minutos em uma linguagem visual que vem do cinema mudo (um belo exemplo do chamado Cinema puro). Enfim, logo após uma citação da Bíblia, uma sombra se aproxima de uma parede… Ela se concretiza na figura de um homem e o filme começa.

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É o nosso protagonista: Gypo, um brutamontes irlandês e ex-membro do IRA.
O filme se passa em uma Dublin fria e arrasada pela fome e a ocupação do governo britânico (e sua resistência contra ele). Logo na primeira cena Gypo olha para um cartaz de “Procurado – recompensa de 20 libras”. É de um grande amigo seu. O valor chama a atenção… Logo ele passeia pelas ruas e temos a idéia da miséria do povo – com uma amiga de Gypo (Katie) se prostituindo por necessidade.

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A história avança e conhecemos Frankie, o fugitivo das autoridades.

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Lindo!

Por uma simples sobreposição temos um insight do que se passa na cabeça de Gypo: As 20 libras estão ressoando em seu íntimo. Logo vai até a loja onde vendem a passagem de 10 libras. Pode comprar uma passagem para a América e fugir desse pesadelo que é a Irlanda.

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Então ele decide entregar seu melhor amigo… Se rende.

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Vende seu amigo. Aqui, um relógio em cada lugar, une as duas cenas, criando um suspense sobre o que vai acontecer com o amigo: é uma questão de tempo.

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A polícia vai até a casa de Frankie, que está com sua mãe e o matam na frente da própria. Recebem a confirmação da morte de Frankie e dão as 20 libras para Gypo de uma maneira que até o próprio policial não apoia o ato dele. Poderíamos dizer que nenhum dos lados acham que sua atitude é correta… Ninguém aprecia de um traidor…

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Na saída da estação de polícia um cego está ali e Gypo o agarra pelo pescoço… Porém percebe que é um cego e o deixa em paz. (Aqui quando assistia senti um toque de “M” de Fritz Lang… e o final do filme confirmou a sensação.)

Cinematográficamente, a culpa de Gypo começa a persegui-lo.

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No primeiro bar que ele entra e escuta a voz do amigo morto e traído lhe dizer “Gypo, sou seu cérebro, não pode pensar sem mim. Está perdido. Está perdido.” – Essa foi a segunda dica de que o filme se tratava de algo mais que apenas uma história sobre a resistência irlandesa e traidores.

Gypo vai até a casa de Frankie para dar suas condolências e para que ninguém suspeite dele (em uma das melhores cenas do filme todo). A atmosfera de tristeza e culpa é incrível. Pede desculpas energicamente, assustando a todos. Ao se levantar, moedas caem de seu bolso e todos olham. As reações corporais de Gypo com as expressões vazias dos outros criam uma atmosfera de culpa impressionante.

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Um bom exemplo do Efeito Kulechov?

Apenas algumas pessoas do IRA suspeitam dele (graças às reações dele) e querem falar com ele… Com o IRA na história, Gypo fica entre a parede e a espada. Completamente sem vergonha, ele incrimina um amigo qualquer para livrar sua própria pele. Marcam um julgamento à 1 da manhã com Gypo e o acusado dele, Mulligan.

Com dinheiro em bolsos e mergulhado em culpa, ao invés de cumprir seus desejos de levar Katie para a América, começa um sem parar de bebedeira e gasta o dinheiro sem pensar duas vezes. É um beberrão insuportável e ao mesmo tempo um herói da massa, que aclama por seus gastos, alcoolismo e brutalidade.

Depois de ir a bares e terminar em um salão de festas da ‘alta sociedade’, vão ao julgamento do IRA e fazem as contas dos gastos de Gypo. Torrou exatamente 20 libras. Mulligan é inocentado e Gypo confessa. É preso e condenado à morte… Pintando os membros do IRA como misericordiosos, ninguém quer cumprir com a tarefa de o matar. Neste interim Gypo foge e vai até Katie… Em sua loucura, ele acha que deu as 20 libras para ela e acaba dormindo bêbado em seu apartamento… Katie, achando que o IRA iria perdoa-lo vai até o comandante e conta onde ele está. Vão atrás dele e atiram nele… A cena final é particularmente misteriosa. Gypo, quase morto, vai à igreja e lá está a mãe de Frankie…

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Gypo então pede seu perdão… e ela o concede.
Termina com Gypo gritando: “Frankie! Sua mãe me perdoa!

Esse filme me pegou de um jeito especial. Demorei em refletir sobre ele porque no começo parecia não haver material suficiente para isso… Mas tinha e a razão da demora era, acredito eu, a profundidade que o filme alcança.

Sabemos que, pelo título do filme e da própria sequencia de abertura, Gypo é O Delator. Porém John Ford nos pinta um personagem dúbio. Ele é contra a prostituição de Katie… Foi desertado pelo IRA por não obedecer as ordens de matar uma pessoa… Gypo não é um assassino. Porém ele vende seu amigo por 20 libras (causando sua morte) – não é um assassino ou é apenas covarde? Também não pertence a um lado per si, como ele diz: “Para os ingleses estou com os irlandeses. Para os irlandeses estou com os ingleses”. O único lado que ele pertence é o seu próprio… O que faz isso interessante é que não é por uma ideologia que ele é assim ou um egoísmo calculador. É simplesmente por sua falta de raciocínio e discernimento. É como se estivesse um passo atrás da civilização, da cultura. Um homem que não sabe o que faz. Isso é sublinhado no filme em diversos momentos, especialmente no final quando Gypo pede seu perdão.

Agora… O interessante é que achei que fosse um filme sobre traição e sobre a resistência irlandesa. Com certeza a trama principal é tecida por esses fios mas por trás dele existe uma imagem, um tema que pode passar despercebido: a redenção. Se lembra daquela citação da bíblia sobre Judas? Era sobre o momento em que ele se arrependeu e se enforcou. O filme parece se conectar com os evangelhos em diversos pontos. Fora a história da traição do amigo ao governo local por um dinheirinho, temos também o tema da redenção de Judas e ainda o tema da inconsciência: quando Jesus disse na cruz “Pai, perdoai-os pois eles não sabem o que fazem.”

A trama do filme está resolvida na sequencia de abertura. A passagem bíblica também nos dá uma dica maior ainda sobre o filme. Logo quando Gypo vai à policia entregar o amigo, ao fundo, quase que despercebida, está a igreja que será palco do final do filme. Os dois lugares estão interligados como Gypo está à Frankie. Assim como nessa cena um relógio marca a hora e conecta o traidor e o traído. Como Judas à Jesus. Parece que tocamos no tema do destino… e a maneira em que o destino de ambos está entrelaçado no filme é excelente: cinematográficamente – de uma simplicidade que só verdadeiros mestres alcançam.

O destino pode ser entendido como uma força supra-pessoal que controla a vida apesar de qualquer esforço da vontade… Como diz Sêneca “O destino conduz o que consente e arrasta o que resiste. “ – Gypo parece viver uma última noite igual à de Jesus, sabendo que ia morrer na cruz. Parece estar em êxtase – ele grita : “The finest night of my life!” e grita seu próprio nome “Gypooo!” – Está cumprindo seu destino.

Posso estar errado. Pode ser que são meras demonstrações de brutalidade e estupidez da personagem, como eu cheguei a pensar no começo… Mas as pegadas do criador são claras. É um destino que se cumpre. Acima do bem e do mal. Acima do patriotismo e da política. Acima da moral. O final em que Gypo é perdoado não é um clichê. Não é um final feliz. É apenas o final da história… Uma história universal que se repete infinitas vezes.

Aqui é o lado do traidor que é retratado. É a sua ignorância a que acompanhamos. Sua inconsciência… O filme mostra os eventos que o levam a reconhecer o que fez e se arrepender. O filme se passa em uma noite… fria e sombria, iluminada por poucos postes de luz, que o diretor fez questão de mostrar sempre quando necessário. Podemos pensar que a fotografia do filme evidencia uma luta moral de luz contra a escuridão, como bem contra o mal, como é normalmente subentendido no Cine Noir… Porém me parece que todo o processo que o filme retrata, em um pano de fundo, é uma tomada de consciência de Gypo. Não é a toa a presença dos postes de luz… E não é a toda que o filme acaba com o dia nascendo.

John Ford deu um cenário novo ao antigo tema da traição do herói, fazendo uma nova reflexão sobre ele: não é por uma questão de moralidade que Gypo se arrepende. Ele não entrou na igreja para pedir perdão à Deus, e sim para a mãe de Frankie. É uma questão de consciência.

Aqui, e somente nesse final, Gypo toma as rédeas do destino e se responsabiliza.

Para que, então, ver o filme se o começo já diz tudo? Essa história já foi contada… É universal. Eu acredito que é simplesmente porque é um filme. O começo não é o filme todo. É uma ilustração… Podemos prever o que o filme se tratará mas nunca vai alcançar a profundidade dele. Não mostra nenhuma faceta que só o tempo, o filme todo, consegue mostrar. Isso pode parecer obvio… Mas é uma pergunta atual, de nosso tempo, onde nos contentamos com pequenas cápsulas que nos dão o que supostamente é o suficiente ou necessário… Porém é tudo tão raso! Tenho que agradecer ao meu amigo Franck por me mostrar onde estava falhando na minha critica, que tem a ver exatamente em aproximar o filme à nosso tempo. Se você tá lendo isso pela primeira vez e não sentiu isso, então re-editei corretamente.

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