Os diários de uma camareira

Quanto tempo sem um post! Aproveito e agradeço minha breve gripe que me deixou de cama (ano passado) e pude assistir “O diário de uma camareira” 3 vezes: de Renoir (1946), Buñuel (1964) e a última, de Benoit Jacquot de 2015.


Vou falar apenas dos filmes, porque o livro “O Diário de uma Camareira”, escrito por Octave Mirbeau, não o encontrei à venda… fato este que torna minha tarefa um pouco ingrata e talvez incompleta… mas vou tentar me ater aos filmes. E para isso, vou contar a (quase) mesma história 3 vezes.

Comecei cronologicamente, com o filme de Renoir, em 1946, 1 ano após o fim da 2a guerra mundial. O filme se passa na frança, feito nos EUA, com atores americanos… Causa uma certa estranheza. Mas enfim, o filme conta a história de Celestine, uma camareira que recém chega a um vilarejo, a caminho de seu novo trabalho na mansão dos Lanlaire. A mansão é comandada pela Sra. Lanlaire que mantém todos os criados e seu marido submissos a ela. Celestine, uma garota atraente, chama a atenção de todos os homens e é cortejada por um após outro… Só que na verdade, ela que seduz a todos.

Estou me adiantando – vamos por partes.

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Literalmente, se trata do Diário de Celestine… Podemos imaginar que ela é a narradora. (mas não é bem assim)

Logo no começo, quando o trem chega à estação, Renoir faz questão de mostrar que Celestine carrega suas próprias malas, quase mais pesadas que ela mesma.

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Imediatamente conhecemos Louise, futura ajudante de cozinha – também recém-chegada – e Joseph, o criado déspota que está à espera delas. Com uma atitude soberba até pede para ver suas referencias e as mãos delas também.
Por casualidade, as referencias estão embaixo do vestido:

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À mostra da perna dela, Joseph olha com certa ambiguidade: desejo (obviamente) e desconfiança… que, dado à breve caracterização do personagem, acredito que seja de sua própria sexualidade. Como alguém que não está acostumado a ser atraído por pessoas.

Joseph atua como um lord arrogante e diz para Louise voltar para Paris por ser feia demais. Celestine a defende e expõe Joseph pelo que ele realmente é: um criado (Vallet), sem autoridade para tal decisão. Celestine a defende ameaçando ir embora junto. Este é um momento lindo: Louise diz que gostaria de ser valente como Celestine, e a última responde que também gostaria de ser assim… porque essa foi a primeira vez que ela falou assim na vida. É um começo de filme bem interessante… A personagem, que achamos ja saber tudo sobre seu papel, saindo do estereótipo.

Joseph desiste de sua decisão e deixa as duas subirem na carruagem.

Planos abertos mostram todo o vilarejo…

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Esse plano da escada em espiral é muito misterioso. Sobem devagar, um após o outro…

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Celestine defende ela e Louise contra os abusos de Joseph e é marcado que ela só está sendo assim agora, que antes ela deixava todos pisarem nela. Cansou dos abusos. Ela mudou por causa de Louise, por ver nela sua própria atitude submissa. Decide então não ser mais uma camareira, que ela seria uma senhora, e iria casar com qualquer um que pudesse lhe dar isso.

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Agora é a vez dela usar os outros. “No more love for Celestine”. A idéia apresentada nos primeiros diálogos se aprofunda, e o filme começa…

Renoir toma seu tempo para nos dar insights sobre a vida dos outros personagens que trabalham/vivem na mansão.

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Personagens são introduzidos no segundo plano, juntos. Eis que é o Senhor da casa. Que não gosta de caçar, mas sai para caçar para sair de casa.

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Celestine acha que ele é o jardineiro, por seu aspecto… e Renoir em uma simples gag, aparentemente inocente, nos mostra que o Senhor no fundo não comparte das regras da casa e não vive entre paredes que dividem as pessoas entre classes. Ele gosta de ficar fora. De estar na natureza, pois sua casa não reflete a sua natureza. Ele até apoia a atitude de Celestine “contra os Senhores”.
Assim conhecemos a Sra. Lanlaire, que sugere chamar Celestine de Marie por seu nome ser complicado. Celestine quase cede mas resiste e exige ser chamada de Celestine.

Logo, Celestine é retratada como muito trabalhadora. Limpando o chão, pergunta sobre um quarto trancado para Joseph… Este diz que não importa agora, mas que se quiser ver algo interessante que ela o acompanhe… Sendo ele o único a ter a chave para este cômodo, mostra as Pratarias dos Lanlaire para Celestine.

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São símbolos da aristocracia, que eles só usam na noite de 14 de Julho – dia da queda da bastilha – mas que para eles é um dia de luto e lembrar os dias da monarquia.

Conhecemos então o vizinho, o Capitão Monjei, que junto à Joseph, escutam a conversa do Sr. Lanlaire com Celestine no jardim, dizendo que ele gostaria de levar ela para Paris…

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Ela se faz de inocente e ofendida por ele ser “como todos os outros homens”, este então pede desculpas e lhe oferece uma moedinha. Ela, esperta, pede algo de valor para ele, como um daqueles objetos de prata. Tudo isso retratado de um modo cômico… (É uma sátira).

De repente o Capitão, um velho e ex-soldado, joga pedras no jardim. Então sim conhecemos de verdade esse personagem, que aqui é retratado como um arlequim, um trickster, velhinho, rápido e mulherengo. Em uma gag digna do cinema mudo, Sr. Lanlaire corre atrás dele pelo jardim.

A cena termina com uma expressão inusitada de Celestine: ela está cansada e de saco cheio.

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Parece que percebe que esses dois velhacos não são boas opções para ela, pois são duas crianças. Resignação, talvez? (estou errado aqui mas a imagem é dúbia)

Logo, elas tem que limpar o quarto fechado, proibido… e resulta que não tem nada demais… Mas Celestine quer saber de quem é ou quem vai vir e Joseph não conta e desconversa. Joseph lhe confia que o Sr. Lanlaire não é rico de nascença e que não tem nenhum tostão que não seja da mulher… Coisa que faz com que Celestine comece a olhar agora para o vizinho capitão como possível pretendente.

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Vai até la para seduzi-lo. (Flertar é melhor). Ele oferece tudo para ela. A casa, 25000 francos, tudo… Na excitação ele mata o esquilo… seu melhor amigo. Rose, sua camareira e amante, ainda tenta lutar por ele…

Joseph está sempre à espreita, olhando Celestine com os outros.

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Uma cena me marcou; Os empregados almoçando a cozinheira conta como Joseph mata os patos com uma agulha na cabeça para que eles morram bem devagar – assim fica mais gostoso. Celestine deixa de comer. Renoir ou Mirbeau?

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Um telegrama trás a noticia que o filho George está voltando. A mãe fica histérica de felicidade. Ela veste Celestine para o filho, até decide o penteado dela… Tudo para seduzi-lo a ficar em casa. Quando ele chega, fica claro que ele não gosta da mãe, e a mãe quer que ele fique na casa sempre. Como é de se esperar, de começo George e Celestine não se dão bem, pois ele sabe que ela é um fantoche da mãe…

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George tem asma. Celestine se oferece a ler para ele. Vira uma ‘companheira’ dele e deixa de fazer trabalhos manuais… Ele conhece pessoas da vila que conhecia a vida toda mas nunca tinha sido apresentado antes. Agradece a Celestine por isso.

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Em meio a uma caracterização positiva de Celestine, Joseph aparece e diz a ela que eles são iguais. Não de aparência, mas na essência… Isso levanta uma suspeita… De que essência ele estaria falando? Podemos inferir que está dizendo de ambos serem Criados… Mas ele leva adiante e fiz da essência. Parece um lembrete de um pequeno demônio dizendo: Estou aqui, sou você.

George pede para Celestine o chamar de George… Ela replica:

– O que sua mãe diria se me ouvisse te chamando de George?

Renoir ou Mirbeau?
George quer ir embora e a mãe faz de tudo, até dar o robe dela para Celestine usar e convencer ele do contrario. Ele fica bravo por isso. Celestine de costas, escuta a Mãe falar com o filho… Maravilhoso.:

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Celestine então se demite, não querendo ser um fantoche da Sra. Lanlaire e diz que não quer ser igual a ela. Joseph então chama Celestine para se casar com ele e sobre o plano de ter um café em Cherbourg… Celestine resiste e ele novamente diz que:

– We are the same. We are alike you and I.
– Maybe the worst in me is like you.

Renoir chama nossa  atenção para tipos diferentes de semelhança entre indivíduos. Primeiro, com Joseph, podemos inferir que estão falando de classe social, de posição. Então Celestine confronta a Sra. Lanlaire e diz que não quer ser como ela. Está ela falando de ser da mesma posição social que ela (por estar com George)? ou, como penso eu, que está falando de sua natureza manipuladora? Deixamos o plano de diferenças de classes aqui. Então Joseph diz isso, de novo? Celestine confirma e diz que talvez o pior dela seja como ele. Isso é lindo.

Joseph então começa a falar sobre o plano de roubar a prataria da Sra. Lanlaire. Ela escuta os 2 em um belo e misterioso plano sequencia… Unindo os 2 ambientes, aumentando a tensão e o suspense:

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Celestine cansa de lutar contra o destino e aceita o plano de Joseph… Mas a Sra. Lanlaire frustra o plano dele, pedindo as chaves. Este responde: “All the keys?.. To all the rooms?” – e ela lhe dá uma bofetada na cara. Uma conotação sexual bem sutil que qualquer um pode entender… Por um simples comentário, no momento certo da trama, Renoir aprofunda os personagens. Amplia.

Celestine até ameaça Joseph que ela vai embora se ele não tem o dinheiro… Ela incita ele para conseguir o dinheiro e irem embora… Joseph então bola um plano rápido para tirar o Capitão da casa para que ele possa roubar seus 25.000 francos. Ela acata.

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As duas vão pra festa (a comemoração da queda da bastilha) com o capitão… Como o bom contador de história que Renoir é, o capitão vai contando o dinheiro que vai gastando… Até que acaba e então ele volta para sua casa para pegar mais dinheiro (só para comprar coisas para Celestine na festa)… e é assassinado por Joseph.

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Voltam então para o jantar dos Lanlaire. Celestine suspeita que Joseph matou o Capitão (Rose aparece gritando que ele desapareceu). Ela sabe que ele matou ele e o confronta. Joseph é mais direto: “We killed him!” – ela fica atônita.

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O povo traz a festa da cidade para a casa dos Lanlaire, por eles não gostarem deles (e por Celestine). “Its a funeral for ourselves and everyone like us.” –  Joseph anuncia que ele e Celestine vão casar e se demitem…

Celestine força a barra pro George lutar por ele. George diz coisas sobre o amor que faz ela fugir. A Mãe fala que eles são criados e tem que estar com criados. Ele desobedece:

– Mãe: You’re my son!
– Filho: Thats what I’m trying to forget!
– Pai se intromete: Hurray for my son!
– Mãe dá uma ordem: Joseph close those shutters – e ele ainda obedece.

A Sra. Lanlaire dá sua prataria para Joseph para que leve Celestine embora. Ela é um dragão que guarda tudo e não quer dar… mas termina por aceitar e dá tudo. O Pai fica perdido em tristeza…

George e Celestine fazem as pazes e se beijam… Ela ama ele. Diz que não pode ficar junto por causa do Joseph… (por ela ser cúmplice de tudo…)

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Joseph briga com George pela Celestine na estufa! (boa cena de briga!) – Ele ameaça matar George e então ela vai com ele…

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Estão com a prataria, o dinheiro e tem tudo para irem embora e recomeçar… Mas agora ela ja não liga para tudo isso.

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Na cidade, no meio da festa, o povo vê Celestine na carruagem e vão parando eles, querendo cumprimentar… Joseph começa a agredir gratuitamente e a multidão reage. No meio da confusão, abrem o baú dele… Celestine então fala que é pra todos e todos pegam um pouco da prataria. George chega e começam a lutar.

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No meio de empurrões, Joseph tenta então matar Celestine. A multidão logo fica contra Joseph também… e o matam numa cena incrível.

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O movimento de camera revela o assassino/assassinado e logo um mesmo movimento, quase que um espelho, revela o casal apaixonado.

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O final segue as normas de Hollywood de então: o vilão é derrotado e a mocinha se casa com o mocinho.

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Fim…

Agora damos um pulo de 18 anos no tempo e temos um mundo transformado. 1964. Ditaduras na América Latina (e quase no mundo todo), Guerra Fria e a polarização do mundo, Nouvelle Vague, Beatles, Cultura de massas, TV, o mundo no meio de uma revolução… e vem este filme – Buñuel!

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A diferença do começo de Renoir e Buñuel são gritantes… Aqui a protagonista chega com apenas uma mala e já acha o cocheiro/motorista sem dizer uma palavra e pega uma carona com ele, sem introduções. As primeiras palavras são: “É longe?” – “Você vai descobrir”.

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Ela tenta puxar assunto e ele não da bola. Ela acha que o campo é entediante, que ninguém se diverte.

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Joseph olha para seus sapatos…
“São seus únicos sapatos? – Que? Não entendi – Certo, banque a inocente..”
É um diálogo que sugere algo… e nos deixa ai. A pergunta é feita, e nossa suspeita se levanta.

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Buñuel faz questão de mostrar os cascos do cavalo golpeando o cimento… o andar. Então, o trajeto. A vilinha.

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– Qual o seu nome?
– Joseph
– Tudo o que eu precisava.

Esse diálogo me deixou mais na dúvida do que o primeiro.

Celestine chega e o patrão a observa…

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Volta a brincar com o cachorro. Não se importa de ir lá. Uma criança aparece com Joseph e conversam com o patrão. A madame, filha do patrão (mestre), é de classe alta, extremamente chata com os objetos da casa. Viciada em limpeza. Até ela limpa as coisas… Tem certos objetos que não quer que Celestine toque.

Conhecendo um pouco mais o Mestre da casa, Joseph o ensina a atirar com a espingarda… Ele mata uma borboleta e Joseph diz:

 – Pensei que você gostava de borboletas.
– Eu gosto! Preferia ter errado.

Outro momento que nos levanta a sobrancelha…

Os antigos trabalhos de Celestine são retratados como lembranças, literalmente, em retratos. (Coisa que não percebi na 1a vez.)

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O espaço me pareceu bem diferente para uma casa de campo. É bem apertado, sufocante. Tem tetos baixos. Lembra mais um apartamento que uma casa de campo.

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Mas a cozinha não… Esse espaço sim, parece normal, uma cozinha de campo…

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E tem suas próprias regras… Seu próprio universo. Existe uma hierarquia entre os serventes e Joseph tem um lugar na ponta da mesa. Ratos aparecem e dizem que é normal que tenha ratos na cozinha…

Buñuel pinta Joseph como um xenófoba e anti-semita. Celestine é desafiadora… Um pouco cínica e despreocupada, por exemplo quando a madame manda ela limpar um vaso que não era para quebrar e ela, obviamente, o quebra por “acidente”…

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Conhecemos a rotina da casa. A hora do Chá do Mestre… ele gosta que leiam para ele… Já quebra um limite e pergunta se ela liga se ele pode tocar a perna dela… A toca, enquanto ela lê e logo pergunta seu tamanho de pé e pede pra ela usar uma bota quando ela vier visitar ele, a noite – um segredo. Madame vem ralhar com ela mas o Papai diz que nunca ligou p/ esse abajur que ela quebrou.

Uma pedra quebra a estufa de vidro.

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Conhecemos o vizinho que gosta de jogar as pedras lá… e a Rose também, sua empregada e amante. E eles que nos dizem os nomes das personagens. Papai (Mestre) é Rabour, e o genro se chama Monteil, que o vizinho odeia. O vizinho (Capitão) lhe avisa das fofocas que já existem sobre Celestine e Monteil.

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Tem algo simbólico em jogar pedras nas estufas deles. Isso está presente nos 3 filmes. Apenas no último é que é bem irrelevante… No filme de Renoir, encontro nisso um sentido como o de Joseph dizendo para Celestine “Você é igual a mim”. O vizinho está chamando a atenção dos Lanlaire, aristocratas, da sua existência… Aqui já diria que é num sentido de incomodar a instituição da “família”.

O genro, Monteil, começa a flertar com Celestine. Mas esta é hábil e já passou por isso antes… Nem se preocupa com os avances de Monteil e até ri disso. Brinca com ele, deixando-o com expectativas.

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As ações são meio desconexas. Uma coisa acontece aqui e outra ali, e vamos conhecendo a vida da casa. Como Joseph matando o pato… Diz que é melhor quando sofrem… E ele diz Gostar assim. Joseph dedura Celestine… se mostra do lado dos patrões. (um rato na cozinha?) A menina que conhecemos no começo sempre está presente na casa… Mas não sabemos quem é.

Um amigo de Joseph também aparece. Um anti-semita… e pelos diálogos dos dois, ser anti-semita é ser patriota. Celestine gosta de menina. Os 2 homens perguntam se ela não devia estar em casa.

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Conhecemos a rotina noturna dos patrões… Se vestem pra ficar em casa, fazendo nada.

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“Camareiras não podem usar perfume” – A patroa não tem nada a fazer a não ser dar ordens. Até o pai reclama da filha…

Celestine dá sua cama para a menina dormir… e usa perfume mesmo assim… Fade. As luzes que se apagam, realmente. Um fade real… Um ponto final.

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Voltamos ao jantar dos criados. Os dois continuam a escrever um artigo anti-semita… e os patrões, ociosos com passatempos. Celestine vai ver o Papai e quer usar os sapatos p/ agradá-lo e ele a rejeita. Em um corte imperceptível, num movimento continuo, passamos para o genro, no dia seguinte – onde ele tenta novamente um avanço em Celestine ela diz que tem sífilis e o trata como se fosse um nada.

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Monteil e o vizinho acirram a briga. Cada um lutando por um pedaço de terra. Seus limites e etc. O xinga de judeu sujo.

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A câmera aponta como algo importante. Monteil não responde e continua andando, como um lord…

De repente o Pai pede para Celestine usar o sapato escolhido… Um fetiche estranho.

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Até ele sabe e se esconde atrás da idade. Faz ela andar com as botas… Ela até tenta seu charme no velho mas percebe que ele só quer as botas…

Celestine enfrenta Joseph por ele ser o informante que dedurou ela… e aqui Joseph começa a gostar de Celestine e a mostrar interesse, apesar do nojo que ela tem dele.

Um padre visita a casa… a madame conta para ele que não consegue satisfazer o marido. Quer um conselho. Diz que ele se masturba. (ou que ela masturba ele) – Não importa. Apesar de ser muito, pelo padre, o importante é que ela não pode sentir prazer. E já começa a falar sobre o teto da igreja… Um “pagamento” velado. Uma hipocrisia escancarada.

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Logo após essa conversa… O Papai morre, com as botas em mãos…

Corta. A menina anda no bosque, pegando caracóis, sozinha. Joseph se aproxima com a carroça. Ela o cumprimenta… Diz que vai levar ela de volta. Ela diz que não terminou… Essa cena é surpreendente: Ele diz “Cuidado com os lobos!” e começa a andar… Logo para e corre atrás dela. Num bosque escuro, um javali corre… E um coelho, a presa, anda despreocupado. Logo, a menina está deitada no bosque, morta e de pernas abertas. É de arrepiar.

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A rotina na casa é a mesma… Celestine se demite… Na estação de trem, a caminho a Paris, ela escuta que a menina foi assassinada e estuprada. Seu nome era Claire… cujo o aprendemos só a esta altura do filme.

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Então Celestine decide voltar porque gostava da menina… Era meiga e inocente. Ela volta a trabalhar… E suspeita de Joseph. Começa então a se aproximar dele.

Aqui reaparece o discurso de Joseph, onde ele e Celestine são iguais. – Ela pergunta pra Joseph se ele viu Claire no bosque no Sábado em que foi morta.

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Ela com a fumaça atrás… Bem misterioso – Mesmo que ele é um caseiro, ogro e etc, e ela trabalhar perto dos patrões… Sao iguais. – Ele eleva a conversa e diz que suas almas são iguais.

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Mesmo no dia do funeral o Capitão ainda joga lixo na casa deles. Celestine visita o capitão… E ele começa a se interessar por ela. Diz pra ela processar Monteil sobre conduta indecente… mesmo que mentira. Quer incriminar o vizinho pelo estupro também. Uma ignorância sem tamanho.

O capitão vai ao juiz de paz porque Monteil o processou. Ele mente descaradamente e etc… O padre aparece na rua à Rose e diz que o Capitão é ótimo etc. Monteil perde o processo… Não tem provas nem nada. O filme é construído sobre cenas desse estilo… Onde a história em si não avança, ou os eventos não são importantes, mas as dimensões dos personagens crescem, se expandem.

Joseph pede pra Celestine visitar seu quarto… A enfrenta por ela ter revistado seu quarto… Ela o enfrenta com dizendo o que pensa. Ele rebate dizendo que ama o exército, a religião, a lei e ordem!

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A pátria acima de tudo. “Um louco amaria tudo isso?” – “Admita que você matou Claire.” – muito boa a confrontação… Porque uma coisa não anula a outra… Buñuel expõe a covardia de quem se esconde por trás dessas instituições tidas como invioláveis. Quem garante que um homem não seja um assassino e estuprador só porque ama sua pátria? Ou um padre ser um mesquinho e até sádico porque é um padre da Santa Igreja? Celestine o beija… Quer ficar junto a ele, seduzi-lo para que se entregue. Mas ele não quer agora… Quer algo sério com ela então agora não pode ser…

Monteil tenta novamente com Celestine mas não consegue nada… Ele então tenta sua esposa… Que também o rejeita. Dormem em camas separadas. Sempre quando possível, Buñuel ressalta a insignificância de Monteil.

Celestine vai à polícia… Mas não é atendida… Não lhe dão importância. Ela desiste… Na volta para casa, o Capitão a pede em casamento. Como um acordo estranho entre 2 pessoas que mal se conhecem. Ela diz que vai pensar.

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Honestos como soldados.

Novamente essa referência a uma instituição “pura”.

Celestine seduz Joseph… Contra a vontade dele, porque ele tem planos pra ela. Que ela seja sua esposa. Conta seu plano de do café em Cherbourg. Ela o rejeita pelas promessas vazias, mas logo o aceita… e dormem juntos. Todo um plano dela para que ele confesse o assassinato de Claire. Plano da luz é muito bom e sugestivo…

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Na próxima cena, Monteil e Madame estão arrumando o lustre deles…chambermaid_bunuel_79

E na cena anterior também (depois do capital pedir Celestine), começava com o lustre dos dois… Mas não o mesmo.

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Nessa cena vemos Monteil se interessar pela criada velha e feia… Mais um covarde… Usa sua posição para se aproveitar dela. Mas ela também parece mostrar interesse…

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Joseph e Celestine anunciam que vão se casar aos patrões… E confirmando a suspeita, Monteil em um surto de insegurança avança na criada velha e feia – Marianne… Se o plano dela olhando para Monteil não existisse, seria um abuso de autoridade e estupro… Mas como ele existe e está bem colocado anteriormente a esta cena, talvez esse evento não seja apenas um abuso de autoridade… e sim algo mais, algo mais simples… talvez apenas desejo sexual e sua consumação. No meio disso tudo, de tantos símbolos sendo contestados e relações de poder sendo postos em evidencias, o desejo humano, a libido, ainda encontra seu vazão.

Madame aceita bem a ida deles… porém Celestine tem outros planos… Está convencida da culpa de Joseph e o incrimina com a sola do sapato dele. Chega a polícia e prendem ele pela prova que Celestine plantou. (que tem a ver com o fetiche do Papai, digamos)…

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Celestine se casa com o Capitão. Monteil foi cumprimentar os recém casados. Marianne está trabalhando para Celestine e o Capitão agora… Ele diz que escreveu um testamento novo que inclui ela. Até virou amigo de Monteil… e o capitão lhe diz que Joseph vai ser inocentado no julgamento… e que é “um bom patriota… a menos que seja um pilantra”.

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Joseph é solto e tem seu café em Cherbourg, com outra mulher no lugar reservado a Celestine… O estuprador sai livre e termina ainda expondo seus pontos de vistas sobre o fascismo, anti-semitismo, etc…? Termina com um final misterioso… Os que marcham desaparecem com 3 cortes e subimos ao céus… onde um trovão soa, anunciando uma tempestade e o fim do filme…

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Fim (2).

50 anos depois…

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Abre com Celestine subindo uma escada e cumprimentando outras camareiras. Nos situamos em uma agência de empregos… A gerente ja manda elas se calarem.

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Câmera na mão. Steadycam . Direção de arte e fotografia impecáveis.
A agente oferece um trabalho no interior. Celestine se mostra dona de si mesma e diz que não quer o trabalho… Começa uma oposição de pontos de vistas:

– Não existem colocações boas.
– Não. Não existem colocações más.
– Claro. O que existem são maus senhores.
– Não. O que existem são más domésticas.

Oposição de posições. De repente, por Celestine insinuar que a outra é quase uma cafetina, a situação muda e Celestine teme por não ser contratada… E a outra a acusa…

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Mas ela pede por favor e assim vai pro interior.

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Já conhecemos a trama. É Joseph quem a espera. Mas vamos sem conhecer… Uma carruagem a espera.

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A coisa é direta: “Você é parisiense?” – “Sim” e pega sua bagagem.

A música é um pouco sombria… Sugere que um suspense estranho nos aguarda nesse local. O campo é introduzido para nós e cachorros vem latindo para Celestine. O cocheiro grita “Deitados!”, os cachorros obedecem e fora do quadro o diretor faz questão de que se ouça o choro deles. Celestine está levemente assustada.

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Nenhuma palavra entre eles. Ela o segue até a casa e é introduzida à Madame Lanlaire. Pela Madame, aprendemos o nome de Joseph…

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A madame, de cara elogia Celestine pela roupa… para logo perguntar se ela vai tirar ela agora (e colocar seu uniforme) e pergunta coisas especificas p/ ela sobre o trabalho antigo, se é limpa e muda de humor muito… E mostra os objetos que lhe são caros a ela…

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Aqui conhecemos a personagem da madame, obcecada pela limpeza e pelos objetos. Logo, uma escolha narrativa nova, que não está nos outros dois: Celestine expressa em voz baixa (para nós) um pensamento rebelde e insosso, meio cínico.

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O que antes estava claro pelo seu rosto, se expressa verbalmente. E umas notas de piano acompanha esse momento… Como se estivéssemos adentrando outra dimensão de sua personalidade.

Conhecemos então o Senhor da casa. Ele pergunta o nome dela e diz que a Madame tem o costume de mudar o nome das empregadas. Ela consente e diz que está a disposição. Ele está claramente fazendo um flerte/avanço passando dos limites e diz que ela cheira muito bem.

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Ela o rejeita. Ele pede perdão e seus chinelos. Mais uma vez, um pensamento secreto…

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Mais um personagem: Marianne, a cozinheira.

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Ela pergunta p/ Celestine de trabalhos anteriores… Se mostra submissa, meio ignorante, desarrumada e introvertida. Celestine pergunta coisas pessoais dos patrões, quebrando um tabu posto pela cozinheira, que de coisas assim não se falam. Joseph apenas olha. A cozinheira diz que isso é de Paris… “lugar decadente”.

Um fade branco nos leva a outra história de Celestine. Outro trabalho, que também começou em um vagão de trem… onde um episódio acontece onde a aduana pede para sua patroa abrir uma caixa em especial…

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e ela diz que Celestine deveria ter tomado a culpa.

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Ela replica que prefere o natural… (episódio Besssta)

Voltamos ao ‘presente’ e ela e outras senhoritas estão a caminho da igreja, e a avisam sobre o Sr. Lanlaire… Que engravida as camareiras.. etc.. Joseph segue Celestine… olhando-a como um lobo. Fora e dentro da igreja. Seus olhares se cruzam. Existe uma conexão.

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Outros pensamentos secretos são confessados para nós: “ela começa a me encher” “falo com quem quiser” “como vim parar aqui?” (comentarei mais adiante sobre este recurso)

Ela faz coisas de camareira… tem uma rotina… a cozinheira lhe conta do vizinho que joga pedras… e diz para não confiar em Joseph.

Mais um pouco de rotina… A madame a chama com um sininho até… Que ela odeia e nos secreta que “não aguenta mais”. Ela abusa um pouco da autoridade, testando o limite da outra… Corre pra la e pra cá. Passa mal… “Não te pago pra fazer nada”.

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Joseph vê o Sr. Lanlaire dando em cima dela de novo… Celestine dá risada dele. Ameaça em contar pra madame… Empurra ele e sai dando risada. Joseph viu tudo e golpeia a terra com raiva.

Celestine vai se cansando… começa a beber no serviço… Sr. Lanlaire vai na cozinha pentelhar elas. Madame chega e pentelha ele e manda ela comprar carne para seus cachorros. Vemos isso em detalhe… Do esforço dela pra isso. Dos trajetos percorridos.

Em suma, vemos a vida insossa deles. Dela servindo eles… E a cada patada, sua ira cresce internamente e seu pensamento o revela p/ nos. Pensa até em como seria fácil matar os patrões. Ela rouba uma ameixa e a madame sabe porque conta as ameixas… O pensamento dela mostra seu assombro.

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Aqui o Capitão aparece tarde no filme e ja explica a diferença entre ele e o Sr. Lanlaire:

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Ele prefere ela na cama dele. Não trata serventes como pessoas inferiores. Neste momento joga uma pedrinha na casa do vizinho… Até toma cidra junto com as 2 camareiras no jardim… E mostra um lado bizarro: Ela duvida dele e ele mata seu bichinho de estimação que aprecia tanto quanto uma pessoa (supostamente) e manda cozinhar p/ comer.

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Mais rotina: Celestine está cada vez mais cansada. Em uma dessas cobranças da madame, ela revela que sua mãe morreu e a madame diz que “não pode fazer nada e que não é motivo para não trabalhar.”

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Mais um fade to white em que conhecemos outra história de outro trabalho de Celestine… só que agora a senhora a tratava muito bem e morava em uma mansão na praia. Foi contratada p/ cuidar de seu neto asmático, Sr. George…

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Até que ele morre porque ela transa com ele…

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depois do funeral ela se demite. Deprimida… começa a transar com desconhecidos por Paris… Fim de uma história quase feliz.

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Joseph começa a mostrar sua indole anti-semita/fascista. Ela defende os judeus… Dizendo que já trabalhou para judeus. Diz que todos são sujos. Não importa o que.

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Marianne conta como teve filho bem cedo e sua vida foi arruinada. Celestine também conta como perdeu a virgindade, por um homem velho e fedorento depois da missa aos 12 anos… Marianne conta que sobreviveu por conta de um trabalho no hospital onde matava coelhinhos da india… e o filho teve o mesmo destino.

Mais rotina… Mais trabalho…

Celestine descobre Joseph com seu empreendimento de imprensa contra judeus. etc.

Aqui também, ele diz que ela e ele são iguais. Apenas neste momento… Onde ele dá confiança pra ela e a eleva acima das outras mulheres.

Lhe conta do seu dinheiro guardado e de seus planos para o futuro, de abrir um café, um puteiro, pra ela ser a cafetina. Ela até imagina:

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Outro fade e outra historia, começando na agência… Onde ela rejeita um trabalho… e na rua uma senhora lhe oferece trabalho de puta no seu casarão. Ela chora ao considerar…

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Volta ao presente e mais cobranças da patroa…

Uma reunião de fofocas onde Rose conta de uma pequena Claire, violentada e destroçada no bosque… desconfiam de todos.

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Celestine pergunta para Joseph disso onde ele acusa “algum judeu”. Em seguida ela tem um sonho onde ele a matou, com 2 planos:

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Pernas.
e

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Joseph saindo da floresta…

(Que contraste com Buñuel!)

Ela acorda e começa a suspeitar de Joseph perguntando do seu sábado, etc… Marianne tem medo de estar grávida do Sr. Lanlaire… numa mistura de não saber resistir e de desejo de estar com um homem também. Finalmente o capitão também começa a dar encima de Celestine, depois de que subitamente descobrimos que Rose morreu… e que o Capitão mal tinha apreço a ela. Oferece o lugar de Rose p/ ela. Um testamento, etc. – só quer trepar e é explicito isso…

Celestine começa a se desesperar e quer transar com Joseph. Ele a recusa. Ela então investiga seu quarto… E dorme em sua cama, sozinha.

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Joseph então a desperta no meio da noite… e roubam a prataria da Madame… e, numa montagem paralela, transam enquanto planejam tudo e executam o roubo.

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Dia seguinte ele soa o alarme que foram roubados… Tudo ocorre como ele planejou… Eles choram e choram. Joseph mata os 2 cães pela “ineficiência” deles – a policia faz buscas e tudo o mais.

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Celestine escuta que os patrões confiam cegamente em Joseph… etc. Joseph então se demite e vai embora sozinho. Em uma breve sequencia de breve momentos, Celestine se mostra mui amiga da patroa e começam a se dar bem… E Celestine vai embora então, como planejado.

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Celestine nos secreta seu ultimo pensamento:

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E fim. (3)

Sinto ter bastante coisa para comentar e não sei onde começar. Talvez com minha visão geral sobre os três eu possa ter um fio para começar a tecer a coisa toda.

São filmes bem diferentes entre si. Os três filmes ressaltam aspectos de diferenças de classes e como suas relações de poder funcionam… e, em segundo plano, o anti-semitismo e a xenofobia que nascia no berço da Europa. Renoir é o único que não cita isso. Não chega perto desse tema. Não sei se foi por exigências do produtor americano ou pelo filme sair 1 ano depois da Segunda Guerra Mundial… Mas coincide com o temperamento dele… e é o que ele consegue neste filme (e em outros filmes também): borra as linhas que separam as pessoas.

Vou tentar me explicar.

Assistindo os outros filmes e lendo alguns resumos online do livro, dá para ter uma idéia do que cada um fez com a história. O livro (até onde sei), é narrado em primeira pessoa (um diário) e ao longo da narrativa no trabalho atual na mansão dos Lanlaire, Celestine relembra vários outros trabalhos que ela já teve. Como assisti em ordem cronológica, foi uma grande surpresa, no filme de Buñuel, ver que George, Louise e a comunidade da vila não existiam. Até mesmo os Lanlaire… No filme de Buñuel estamos na mansão de outra família… apesar de Joseph, o vizinho Monjei e Marianne, a cozinheira, estarem presentes. No filme de Jacquot, estamos novamente com os Lanlaire, com Joseph, Marianne e o vizinho… Mas sem o triângulo amoroso presente em Renoir… O que descobrimos aqui é que George é um caso a parte, de outro trabalho que Celestine teve na vida. Também vim a descobrir que em Buñuel, o Patrão com um fetiche com sapatos, no livro era um outro trabalho, de uma memória. Renoir e Buñuel re-arranjaram os personagens das memórias de Celestine para melhor servir a história que eles queriam contar. Jacquot, pelo que parece, foi fiel ao livro e ressaltou (ou criou, não sei) um lado sexual, cheio de clichês…

As novas relações, caracterizações e destinos propostos por Renoir leva as personagens a questionarem suas posições, suas diferenças e semelhanças. Não só em níveis diferentes mas em essência. Desde o começo, com Louise admirando a atitude de Celestine, até o final, onde Celestine abdica o dinheiro e a prata em nome de sua própria alma. A Celestine de Renoir passa por diversas transformações. De alguém que se deixa abusar em alguém que luta por si mesma. Alguém que colocava os outros em primeiro lugar e depois a si mesma… Até de ser uma trabalhadora honesta em alguém que quer casar por dinheiro, perdendo uma fibra moral. Alguém que, por estar tão exausta, contempla um crime (roubo) como solução real… que termina em assassinato! Podemos dizer que Renoir trocou a morte da inocente Claire pelo inocente (por sua loucura) Capitão Monjei. Mas aqui não é um crime que é fruto de uma violência bruta, primitiva (talvez instintiva) do ser humano mas sim fruto de um desespero gerado pelo meio deles… por sua situação imutável. Em poucas palavras: pela falta de dinheiro. Querem ser donos de si mesmos. Só que no final, graças a George, graças à sua luta contra o domínio de sua mãe, Celestine entende onde sua cegueira a estava levando. Aí é que entra um elemento que só Renoir trás à mesa: a multidão. A comunidade. O povo… É o povo ali que impede a carruagem de Joseph passar porque eles adoram Celestine… Criam uma confusão que resulta na morte de Joseph. E aqui… Renoir parece nos dizer com sua câmera, sua direção, com 2 travellings espelhados, que apesar de suas diferenças, tanto Joseph quanto Celestine, são de fato os mesmos. Também que Celestine teve certa participação, certa responsabilidade, no assassinato de Joseph. Neste filme as linhas que dividem as pessoas começam bem delimitadas, em vários níveis de profundidade, até serem completamente borradas.

O filme de Buñuel é um pouco mais direto. Celestine de Buñuel não é uma personagem que questiona o status quo, mas antes questiona (ou apenas dá risada) das idiossincrasias de todos. É alguém que está bem acostumada com seu ofício e já sabe o que esperar das pessoas. Conhece bem a natureza dos patrões, mesmo conhecendo pouco.
Acredito que o filme de Buñuel não se centra nas relações dos personagens mas em certos aspectos deles. Através de tipos de pessoas (fetichistas, controladoras, violadores, anti-semitas, etc) ele crítica as instituições de nossa sociedade. Crítica, denota, a relatividade delas e a falsa crença na incorruptibilidade delas. Nos mostra, de fato, quem são os membros que compõem essas instituições… e mais importante ainda, como esses membros se escondem atrás delas. O Papai Rabour atrás de seu escritório e posição usa Celestine para satisfazer seu fetiche. A Madame apenas mantém a instituição da “familia burguesa” em seu lugar, controlando, mantendo as aparências.
Joseph, a crítica mais notável de todas, se esconde atrás da pátria, do exército e da religião… Seu amor por tudo isso com certeza o livra de todos os pecados… Aqui Celestine não é igual à Joseph. Ela o enfrenta diretamente, até chega a dormir com ele para provar que ele matou Claire… Ela termina casando com o Capitão. Seu status muda… mas nunca pareceu ser um problema neste filme. (mas Marianne não mudou… apenas mudou de patrões.) Buñuel parece nos dizer que a inquestionabilidade das instituições é que permitiu os perversos a subirem ao poder. Bem no final do filme também dá um breve espaço para a multidão, como Renoir, mas acredito que é mais no sentido da massa, daquele monstro embriagado e manipulável…

Acho que deu pra pegar a idéia. Acredito que Buñuel fez uma adaptação tão boa como a de Renoir. Daria pra continuar bastante sobre o filme de Buñuel, que é uma jóia em si, mas já é hora de ir para outro post…

Em comparação, no filme de 2015 não vi nenhum aspecto novo ser explorado. Aqui Celestine nos confidencia segredos em off (que acredito serem bobos e óbvios), e através de seus flashbacks – todos com experiências difíceis – e o momento presente, com os abusos da atual patroa, nos dá um conteúdo para justificar o retrato que o filme nos dá: de uma Celestine cínica e sem esperanças. Neste filme ela realmente quis Joseph e foi adiante com seu plano – com o crime… Aqui ela é moralmente fraca e inferior. O final do filme me pareceu bem inesperado: ela diz que Joseph a domina como um demônio e ela faria o que ele quisesse… Isso o filme nunca nos deu uma dica para tal. Foi uma surpresa um tanto desagradável. Pareceu uma solução rápida e sem dor para os criadores do filme.

Deu pra ver que não gostei do último filme… e realmente não gostei. Mas graças a ele, temos uma régua mais precisa sobre os outros dois filmes. Os outros dois filmes ganharam nova luz depois deste terceiro…

Renoir dá um final feliz para Celestine, onde vemos ela num vagão de trem, em direção para um futuro novo e feliz com George. O amor conquistou as diferenças, a cobiça e mudou o status quo…
Buñuel dá para Celestine um final duvidoso… Ela se casa com o capitão e veste agora os sapatos de uma Madame. Se casam sem amor algum, como um mero acordo entre duas pessoas… As coisas mudaram nas duas casas, mas o status quo não. A Justiça falha e deixou um pedófilo e assassino andar e a espalhar seu ódio… pressagiando o anti-semitismo que explodiu logo no começo do século 20. (sei que no livro existe isso e incluiu um fato histórico onde este movimento anti-semita primeiro apareceu na França) – Buñuel faz com que sua ficção encontre de cara uma dura parte da nossa realidade…
Já Benoit Jacquot joga Celestine para os lobos… Ela vira uma criminosa. Magicamente possuída no fim do filme por Joseph… Este também, consegue concretizar seu plano e leva Celestine para ser a puta que ela uma vez chorou ao pensar na possibilidade de ser…

Não posso afirmar qual é o mais fiel ao livro pois não o li…
Acho que isso não importa a esta altura. Pelo menos não aqui… Não acredito ter uma conclusão para dar pois não queria provar nenhum ponto, mas compartilho minha opinião:
Acredito que Renoir fez um filme de Renoir.
Buñuel um filme de Buñuel…
e Jacquot… um drama de época.
Talvez eu esteja sendo um pouco duro com o último, mas é o que penso. Talvez ele até tenha criado um filme de Jacquot – acho difícil um diretor não imprimir algo de si em sua obra… mas não saberia dizer.

Sinto estar deixando coisas de fora… Algo de Joseph… Algo do Sr. Lanlaire… Alguns planos que mencionei mas não aprofundei… Coisas que estão nos 3 filmes… Mas enfim, acredito que quem quiser ter uma idéia completa e própria de tudo tem que realmente ver os filmes. Não pretendo ser tão meticuloso. Senão daria um belo livro…

Antes do fim, me permita uma digressão divertida: Renoir cria na verdade dois triângulos amorosos… Um com Celestine-Joseph-George e outro com Celestine-George-Mãe. Isso é mais que interessante… Porque George, na realidade, no livro, é uma memória. Um ideal. Celestine, pelo que posso inferir do filme de Jacquot, amava George. Então, trazendo George para o meio das 2 mais importantes relações de Celestine, com Joseph e com a Sra. Lanlaire, Renoir faz seu filme, uma sátira, beirar o realismo psicológico. George é um fantasma que voltou dos mortos! Um tipo de herói ideal… que, termina por assim dizer, literalmente, no filme, salvando Celestine de sua patroa e de Joseph. Ele altera todo o curso da “história”. Se assim pudesse ser interpretado realmente… Ele seria nada mais que um produto da imaginação de Celestine! (O que faria do seu travelling espelhado um belo toque).

 

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