Miss Violence

Este é um filme perturbador. Se você já viu, prossiga. Se não viu, abstenha-se.

Miss Violence é um filme grego dirigido por Alexandros Avranos, segundo a crítica especializada, um promissor diretor.

O filme começa, primeiro de tudo, com uma porta:

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Logo as irmãs saem do quarto e vão para a sala, onde acontece a comemoração de aniversário de uma delas, chamada Angeliki. A atmosfera é de uma família comum, um pouco travada em suas emoções e um pouco reservada. De repente Angeliki vai até o balcão, olha para a câmera, sorri…

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e se joga. A família se pergunta “Onde está Angeliki?” e a descobrem lá embaixo, espatifada no chão.

Hmm… Intrigante!

Então começamos a conhecer a família, após esse “acidente” traumático. A família é constituída por Avô, Avó, Mãe, Filha maior, Filha do meio (que se matou), Filho e uma Filha caçula. Nunca sabemos sobre o Pai dos filhos, e apenas podemos imaginar que ele os abandonou ou algo do estilo. O avô parece cumprir o papel paterno, levando eles pra escola e educando-os (mais para castigando).

Os castigos e jogos mentais que o avô impõe à prole começa a chamar nossa atenção. Os avôs não deixam eles reclamarem de nada. Toda a atmosfera é bizarra. Não estranhamos isso pelo suicídio inicial, mas logo vemos que eles não ficam de luto propriamente (a não ser pela mãe) e algo mais contribui para a estranheza e a atmosfera pesada.

Isso tudo é construído pela linguagem. O filme todo é um processo de conscientização, pontuado por cortes secos após um leve choque. O primeiro é o suicídio. Após começarmos a conhecer a família, vamos um pouco mais fundo e em uma cena a vó dá um tapa na cara de um neto (ou neta, não lembro). Corte.

O próximo corte-choque é quando o avô pega a filha mais velha na escola e leva ela para um lugar sujo, embaixo de uma ponte. Corte.

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Esses cortes sugerem algo. Sugerem censura. Repressão. O filme é construído assim, por omissão.

Lentamente e aos poucos vamos conhecendo o quão controlador o Avô é. Não deixando ninguém ter um pouco de privacidade, ao ponto de ser impossível chorar sozinho. Tira a porta do banheiro. Castiga os netos com fome. Força os irmãos pequenos a serem seus próprios carrascos. Força brincadeiras bizarras onde eles são animais, etc. Tudo para satisfazer os desejo sodomitas do Avô. É um ambiente sufocante e começamos a vislumbrar o porque que a pequena Angeliki se matou.

A violência escala até o ponto do Avô prostituir a filha, mãe das meninas. Porém não entendemos isso de cara. É um encontro bizarro com um homem estranho. Um esquema para mentir à previdência social. Este homem estranho é usado como testa-ferro pois a filha está gravida do próprio pai. Chegamos a um topo da montanha e parte do tabu é revelado: Incesto. O diretor nos faz participe da culpa, entrando na pele do avô quando os agentes sociais visitam o apartamento. Talvez nos dizendo que fazemos parte desse drama humano, presente em todas as épocas e culturas.

Mas o horror não termina aí; repetindo a cena do carro embaixo da ponte, vamos além e vemos o que acontecia de verdade: O avô é um monstro. Prostitui sua filha e suas netas (que são suas filhas) e ainda abusa delas. Também ficamos sabendo que o avô começa a abusar delas e prostituir elas quando fazem 11 anos (idade de Angeliki) e que por isso ela se matou. Logo o avô decide prostituir a menor… E o faz, atrás desta porta.

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Nesse ponto estamos com o estômago revirado. Após sabermos de tudo, temos uma janta em família onde vemos todos comendo, vivendo como família… Literalmente vemos a família de todos os lados.

A cena final, com a Avó limpando as facas apenas desejamos que ela mate o filho da puta. Coisa que no final, acontece e sorrimos junto com a filha…

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O final de fato é misterioso: A avó diz “Eleni, tranque a porta.”

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Será que a violência não acabou? Que a dinâmica, apesar do avô ter morrido, não mudou? A Avó assumirá o papel do Avô? Ou somos deixados do lado de fora, pois agora o tabu se esgotou? O tema da porta é bem explorado durante o filme todo, e o diretor soube quais portas abrir e fechar para o espectador.

Não sei.

De qualquer maneira, o filme vale a pena pela maneira que o diretor conta a história. O estilo contribui e é essencial para o todo da obra. Não acho que seja um filme excelente sob nenhum aspecto, mas vale ressaltar o esforço que o diretor pôs no filme e o efeito que conseguiu, através de um estilo apropriado, revelando paulatinamente os conteúdos reprimidos e agentes repressores da família… para contar a história.

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