Maps to the Stars

Maps to the Stars is a thinker. Acredito que muitos possam rejeitar o filme de cara e dizer que é uma merda pois ele é um filme ligeiramente fora da curva. Não acredito que seja um filme excelente, nem mesmo um filme muito bom. Como é dirigido pelo Cronenberg, temos a tendência a dizer que deve ser bom, sem mesmo tê-lo visto. Pessoalmente tenho uma atitude diferente mas parecida: acho que se é do Cronenberg, vale a pena ver e refletir sobre. (até escrever algo sobre!)

(Grande spoiler a seguir)

A trama principal é sobre uma garota misteriosa – Agatha (interpretada por Mia Wasikowska que deu um show em In Treatment) – que vai à Hollywood. Ao longo do filme descobrimos que ela é a irmã de um famoso ator mirim chamado Benjie Weiss (um belo de um escroto). Agatha consegue um emprego como assistente pessoal de uma estrela em decadência chamada Havana Segrand (Juliane Moore), através da indicação pessoal de Carrie Fisher (Ela e Agatha são amigas de Twitter!). Havana faz um tipo de terapia catártica com o pai de Benjie (John Cusack), um famoso autor de livros de auto-ajuda e terapeuta das estrelas, para superar um trauma de infância onde supostamente sua mãe a violou… Jerome (Robert Pattinson) é o motorista de limusines, aspirante a ator e roteirista, que acompanha Agatha de lá pra cá em certos dias.

A narrativa é construída a partir de cenas, digamos, particulares, onde, em um filme comum, fariam parte do meio do filme e não do início. Em outras palavras: os personagens não são introduzidos, já estamos com eles no meio de suas rotinas. Não sabemos quem é quem e nem de quem ou de que estão falando. Naturalmente, ao longo do filme vamos costurando a trama e não sobra nada de incompreensível.

As personagens vivem em uma Hollywood escatológica, onde é normal que caguem na frente do outro, roubem o coco do outro e vendam no eBay, façam xixi dentro um do outro, etc… Temos um olhar realmente único da vida de celebridades Hollywoodianas sedentas de fama, dinheiro e status. Seu narcisismo e egoísmo são sem limites. Tive a sensação que a narrativa tem uma lógica parecida: as partes que conhecemos dos personagens são todas merdas. É como se Cronenberg nos colocasse no banheiro deles pra vermos eles cagarem, figurativamente falando. E realmente, mais tarde no filme, literalmente o faz.

Continuando…

Benjie e Havana começam ter visões com mortos. É algo que nos da uma estranheza mas as personagens parecem saber lidar com isso. Não fazem um escândalo sobre isso… (Engraçado é que são dois personagens que não se cruzam no filme todo.) Os pais de Benjie se desesperam ao saber que Agatha está na cidade… Descobrimos que Agatha, anos atrás, incendiou a própria casa com ela e o irmão, Benjie, juntos. Havana, por sua vez, quer estrelar no filme sobre a vida da própria mãe (que morreu em um incêndio). Nos aprofundamos na rotina deles e vamos indo mais fundo na sujeira que é o mundo que eles habitam em Hollywood. Agatha e Jerome se aproximam e fazem sexo na antiga casa da família dela, a casa do início. Logo descobrimos que os pais de Agatha e Benjie (Dr. Stafford e Christina) são irmãos e que o casamento deles é fruto de incesto. Também descobrimos que o incêndio que Agatha causou na infância, quase morrendo e matando seu irmão, não foi apenas um incêndio e sim um casamento entre os dois e uma tentativa de suicídio. Agatha vê o irmão e o Pai pede para que ela se vá… Que paga para ela ir embora. Agatha é misteriosa e nunca diz nada definitivo. Mais ou menos à essa altura temos uma cena emblemática, a única (se não me engano) com música extra-diegética:

A mãe, supostamente uma pedra, chora desconsoladamente. O filho escuta da sua cama… E logo vemos Agatha jogando fora seus remédios (que provavelmente mantinha sua esquizofrenia sob controle): LIBERTY. – Estamos chegando ao fim.

Agatha visita a mãe… Seu pai aparece e a golpeia. No meio do tumulto ela rouba a aliança da mãe sem eles perceberem. Quando a mãe percebe, diz algo como: “Agora todos vão saber nossos segredos, nossos crimes.” Paralelamente, Benjie tem uma visão da menina morta e acaba quase matando um ator mirim coadjuvante, marcando o fim de sua carreira e do sonho financeiro de seus pais. Enquanto isso Havana está sendo levada por Jerome e ela o seduz para que façam sexo anal dentro do carro. Agatha vê a cena de dentro da casa de Havana… Havana entra e sem escrúpulo algum demite Agatha e a humilha… Na melhor cena do filme, Agatha pega uma estatueta (um Globo de Ouro ou um Oscar?) e mata Havana.

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Benjie vai à casa de Havana para ver a irmã… Ela o manda para casa para que pegue a aliança do pai… Stafford (pai) chega em casa e vê Christina (mãe) pegando fogo à beira da piscina. Este não sabe como reagir e a empurra dentro da piscina. Benjie chega em casa e vê o pai deitado em uma espreguiçadeira em um estado catatônico. Benjie tira a aliança do dedo do pai e vai embora. Agatha e Benjie vão para a casa que foi queimada anos atrás, tomam um monte de remédios, se casam com as alianças dos pais, recitam o poema e morrem.

Fim.

Escrevendo e resumindo o filme aqui, penso que este filme, se fosse filmado por um diretor mais “arroz e feijão” daria um drama razoável ou até mesmo um thriller bem forte. Mas não foi feito de uma maneira normal, ressaltando os acontecimentos, aqui os acontecimentos apenas… aconteciam. Não tem grande drama. Os personagens não tem fortes emoções. Fazem parte dessa Hollywood sem sentimentos e nada interessante.

O aspecto mais interessante para mim é a aparição dos mortos para as personagens. Você pode ficar tentado, no final, a dizer que era um mal de família, pois Agatha já ouvia vozes na infância. Mas acho genial que os mortos vem para cobrar os vivos e critica-los. Os mortos de Benjie citam o misterioso poema ao longo do filme, cobrando que o ritual que foi interrompido anos atrás. A mãe de Havana critica seu desespero de culpa-lá por todos os seus problemas e seu modo de vida: “inferno é uma vida sem narcóticos.” São os mortos que movimentam o filme: desde a história do incêndio, onde vozes ordenaram Agatha fazer o que ela fez, até Havana querer interpretar sua mãe morta, até a menina que aparece à Benjie fazendo-o estrangular o amorzinho. A volta de Agatha, tão temida pelos pais, é a vontade cega dos mortos a ser cumprida. Um destino impossível de se escapar.

Ainda acho que o filme tem um mistério escondido. Em suma: Casal de irmãos tem dois filhos, menino e menina. Ainda crianças, esses dois irmãos fazem um ritual de casamento com fogo, incendiando a casa. Eles não morrem e o ritual é interrompido. Afastam a menina da vida deles e cuidam do irmão menor, que vira uma estrela de Hollywood. Anos depois, Agatha retorna, com ela, os mortos também voltam, e cumprem o ritual, consumindo o matrimonio incestuoso e morrendo queimados após recitar o poema “Liberty”. Lembrando que no começo do filme, Agatha vai até a casa deles que foi queimada e se pergunta porque a casa não estava no “Mapa das estrelas”. No final, o ritual ocorre no mesmo lugar, matando os dois, fazendo a casa entrar no “Mapa das estrelas”.

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Agora a dúvida é: esse final é o porque do nome do filme? Seria algo tão simples como colocar a casa no mapa das estrelas? Não pretendo dar respostas. Quero terminar fazendo mais perguntas.

É uma trama quase mitológica – como a própria Agatha disse à Jerome: “Tenho um roteiro mitológico para você“. Incestuosa e trágica. Seguindo essa hipótese, nossos personagens seriam extra-humanos, divinos. Onde moram os deuses (pelo menos os gregos)? No Olimpo, no céu, nas estrelas… e que tipo de pessoas personificariam melhor essa idéia do que as estrelas de cinema?.. Engraçado é que nossas personagens não são nada de “divinos”. São exatamente o oposto. Aqui Cronenberg parece querer mostrar uma realidade que compensa a ilusão da vida das estrelas: elas são esquizofrênicas, neuróticas e infantis em um sentido negativo: presas em um estado de fixação anal.

O motivo mitológico é a união dos opostos: irmão e irmã geram dois filhos, um menino e uma menina, que repetem o ‘pecado’ dos pais. Mas não chegamos a saber se o incesto realmente ocorreu entre Agatha e Benjie. Parece ser muito mais uma necessidade simbólica. Acredito que os filhos querem realmente purgar o pecado dos pais: realizando um casamento e consumindo a união através do fogo; ou seja, espiritual. Até a mãe morre queimada sem explicação!

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Porém, se focarmos no aspecto literal do evento, a morte dos dois é também um exagero por parte de ambos. Mas… temos que tomar isso figurativamente também. Os dois lados vão estar sempre misturados. A união dos opostos ocorre no filme e no contar do filme. Outra alegoria dos opostos é Havana-Micah quando diz, dançando à beira da piscina, celebrando a morte do filho de sua rival: “Nós somos fogo e eles são água.”

Não quero entrar em detalhes teóricos de psicologia mas acredito que o filme conta a constelação de um conteúdo inconsciente: “esquizofrênicos” que vêm mortos e escutam vozes; o arquétipo da união dos opostos (irmão-irmã) se consumando; faz com que a casa entre no mapa das estrelas.

Confesso que o filme, como filme, não me agradou muito.
Me agradou muito mais pensar sobre ele, divagar e escrever sobre.

Aqui fica o poema, recitado pelos mortos:

On my school notebooks
On my desk and on the trees
On the sands of snow
I write your name

On the pages I have read
On all the white pages
Stone, blood, paper or ash
I write your name

On the images of gold
On the weapons of the warriors
On the crown of the king
I write your name

On the jungle and the desert
On the nest and on the brier
On the echo of my childhood
I write your name

On all my scarves of blue
On the moist sunlit swamps
On the living lake of moonlight
I write your name

On the fields, on the horizon
On the birds’ wings
And on the mill of shadows
I write your name

On each whiff of daybreak
On the sea, on the boats
On the demented mountaintop
I write your name

On the froth of the cloud
On the sweat of the storm
On the dense rain and the flat
I write your name

On the flickering figures
On the bells of colors
On the natural truth
I write your name

On the high paths
On the deployed routes
On the crowd-thronged square
I write your name

On the lamp which is lit
On the lamp which isn’t
On my reunited thoughts
I write your name

On a fruit cut in two
Of my mirror and my chamber
On my bed, an empty shell
I write your name

On my dog, greathearted and greedy
On his pricked-up ears
On his blundering paws
I write your name

On the latch of my door
On those familiar objects
On the torrents of a good fire
I write your name

On the harmony of the flesh
On the faces of my friends
On each outstretched hand
I write your name

On the window of surprises
On a pair of expectant lips
In a state far deeper than silence
I write your name

On my crumbled hiding-places
On my sunken lighthouses
On my walls and my ennui
I write your name

On abstraction without desire
On naked solitude
On the marches of death
I write your name

And for the want of a word
I renew my life
For I was born to know you
To name you

Liberty.

(by Paul Eluard)

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