Le Corbeau & The 13th Letter

H.G.Clouzot e Otto Preminger! Esses dois filmes foram uma verdadeira surpresa. Estava eu a “surfar” em um fórum de cinema e me topei com o “Le Corbeau” do Clouzot… (aviso de spoilers)

Ao ler a sinopse fiquei interessado e no final do post do dito fórum tinha uma nota onde Otto Preminger tinha feito um remake 10 anos depois, em Hollywood. Chamou ainda mais minha atenção, pensando que daria um bom post aqui, comparando os dois e descobrir as motivações de ambos os diretores. Por mera curiosidade, comecei com o remake para depois ver o original… Eis a grande surpresa: o filme “The 13th letter” do mestre Preminger era realmente bem enfadonho. Quase desisti de ver “O Corvo” do Clouzot porque imaginei que se o Preminger quis refazer esse filme… ele deveria ser pelo menos bom. Mas… lembrei de alguns remakes da época, feito por mestres, onde o original era superior… (exemplo La Chienne de Renoir e Scarlet Street de Lang) e, felizmente, minha intuição não estava errada: O filme de Clouzot é ótimo.

A trama de ambos os filmes é a seguinte: em uma cidade do interior – da França ou Canadá, pode ser em qualquer lugar – um escritor anônimo começa a enviar cartas difamatórias envolvendo um galante Jovem Doutor e a esposa de um colega médico, um senhor já na casa dos 60, cujo chamarei de Velho Doutor e sua mulher de Jovem Esposa. A trama envolve o hospital onde trabalham e a pequena cidade, onde praticamente todos se conhecem. De início ignoradas, as cartas começam a chegar em outras pessoas, todas falando sobre o caso dos dois, exortando para que o Jovem Doutor seja expulso da cidade, acusando-o de canalha e falso. Que os pecados dele recaem na cidade se ninguém faz nada sobre o assunto. Ninguém dá muita bola e então as cartas começam a falar sobre segredos de todos da cidade… colocando um contra o outro. Logo, todos querem saber quem é esse escritor anônimo e prendê-lo. Um evento marcante no meio da trama é que um dos pacientes do Jovem Doutor – um Soldado Ferido na guerra – recebe uma carta anônima dizendo que ele tem uma doença incurável… e então comete suicídio, provocando grande comoção na cidade. Outro evento marcante se segue: seu funeral. Durante a procissão, uma carta cai no meio da rua… No começo quem passa por ela decide ignorá-la… Mas aí alguém a pega e a carta provoca a fúria dos cidadãos. Todos suspeitam e apontam à Irmã da Jovem Esposa (cunhada e ex-amante do Velho Doutor), que é enfermeira e conhecida por ser grosseira com seus pacientes. Ela é presa, sem prova alguma, por mera suspeita coletiva – por ela ser uma má enfermeira é um alvo fácil para o ódio coletivo. Logo, após a prisão, as cartas cessam por um tempo… mas como o Jovem Doutor ainda não fora expulso… as cartas re-aparecem em outro momento marcante, bem no meio de uma missa de domingo. A carta meio que cai do céu… vindo do camarote da Igreja. Então, as aproximadamente 20 pessoas que estavam no camarote se tornam suspeitas. A Irmã é liberada e os bons doutores (o jovem e o velho), junto à polícia e a prefeitura, planejam testar a caligrafia de cada um para saber quem é o escritor anônimo. O meio que eles chegam à solução do caso é um levemente diferente em cada filme, mas em ambos a identidade do escritor anônimo aponta para a própria Jovem Esposa… para logo ser revelado que quem era o escritor anônimo era o próprio Velho Doutor, que manipulou a todos durante todo o filme, e até nas investigações. Uma personagem que sempre estava na tangente da história, a Mãe do Soldado Ferido, fica sabendo disso ao mesmo tempo que nós, os espectadores, e mata o Velho Doutor antes do Jovem Médico confrontá-lo. E… Fim. Existem sub-tramas com personagens secundários em ambos os filmes mas optei por deixar de fora.

Ambos os filmes seguem a trama com leves diferenças… Vou tentar por os filmes lado a lado:

Le Corbeau:

Começamos em um cemitério! Depois de nos situar “em qualquer lugar” e ver a vila de longe, entramos no cemitério desse lugar, e com um travelling ele nos abre as portas do cemitério, revelando a Igreja do lugar.le_corbeau_001 le_corbeau_005 le_corbeau_007Esse começo é muito sugestivo. Logo, vamos para um campo, uma fazenda… Sem palavras, 3 senhoras estão esperando algo com ansiedade. De dentro da casa sai um homem com uma expressão séria. Ele é introduzido pela câmera, com sangue nas mãos mas com a consciência tranquila. É um homem durão, que sabe o que faz. Cônscio. Pelo diálogo com a senhora dá a entender que ele realizou um aborto, de Sã consciência, pois a mãe estava viva.
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The 13th Letter:

O filme começa com o Velho Doutor (aqui chamado de Dr. Laurent) chegando numa balsa. Um letreiro nos diz que é uma vilinha pequena no Canadá – e realmente foi filmado ali – sem nos dizer o nome nem nada. Pode ser em qualquer lugar.the_13th_letter_000the_13th_letter_001Dr. Laurent, um velho meio rabugento, chega de uma viagem e vai para casa. Um carteiro é quem introduz o Dr. Laurent (um toque irônico, dado à natureza da trama). Dr. Laurent tem uma atitude meio pedante e tranquila demais. A caracterização lembra um pouco o estereótipo de um psicanalista Freudiano.the_13th_letter_006Sua mulher, chamada Cora, introduzida por um quadro na parede, não está.the_13th_letter_007Vemos então que ela está no hospital, esperando outro médico: O Jovem Doutor (aqui chamado de Dr. Pearson), cujo não tem nenhum interesse nela apesar de sua beleza.the_13th_letter_008Conhecemos também a irmã de Cora, Marie, uma enfermeira, que supostamente morre de ciúmes de sua irmã (assim Cora quer que acreditemos) e deixa uma carta para o Doutor…the_13th_letter_011

Podemos ver claramente como cada diretor começa seu filme. Clouzot abre com imagens sugestivas. Ele primeiro introduz a vila com um establishing shot geral, depois, com um travelling, dirigindo nosso olhar, e nos movendo como uma entidade viva, quase fantástica (o cinema é fantástico, né não?;), para o cemitério e a igreja. Quase um modo de dizer: vamos tratar sobre os mortos e redenção. Logo, com um corte, vamos para vários kilometros dali, para uma fazendinha onde um homem, nosso protagonista, realiza um aborto, salvando a mãe.

Preminger começa com uma balsa, com a vila pequena ao fundo, estamos acompanhando um homem misterioso à caminho dali. Ficamos sabendo, através do carteiro, que ele é o Dr. Laurent, que chegou de viagem e ao chegar em casa procura sua mulher. A conhecemos por um quadro dela. Sua imagem. Há um mistério. Mas ao passar para o hospital e como ela se joga para o doutor, o mistério desvanece… e o protagonismo passa para o Jovem Doutor. Ao contrário de Clouzot, onde sabemos de primeira se tratar de um drama coletivo, Preminger sugere que é um drama íntimo, sobre esse velho doutor e sua esposa.

Corte e vemos uma escola, com crianças em fila esperando a abertura dos portões. Quando abre, saem correndo. Corta.
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Corta.
le_corbeau_016Vemos um portão similar de um hospital público com pessoas entrando… Compare com Preminger e já há muita coisa perdida… não expressa, diria. No hospital conhecemos rapidamente François o soldado moribundo e sua mãe. A enfermeira Má (cunhada e ex-amante do Velho Doutor) e a assistente social, sua irmã, Laura (a Jovem Esposa), ‘boazinha’, casada com o Doutor Zorvet (Velho Doutor).le_corbeau_018 le_corbeau_022 le_corbeau_023Conhecendo já a história, sabemos o que a navalha significa. Clouzot já chama a atenção pra ela no começo. Preminger no entanto minimiza esse efeito. A irmã xereta, a enfermeira, descobre fuçando no avental do Dr. Germain (o homem do começo, o Jovem Doutor) uma carta p/ sua irmã.le_corbeau_027Ela é pega no flagra, mas dá uma desculpa qualquer… A pedido de um amigo Professor, Germain vai ver Denise (a jovem hipocondríaca).le_corbeau_035 le_corbeau_036A caracterização dela como uma “promiscua” é mais óbvia e direta. Laura, ao contrário, parece neutra. Aqui, Laura realmente parece querer distância de Germain…le_corbeau_041Dr. Vorzet chega de viagem e uma carta para ele também chega… e Laura parece surpresa por isso (o que não seria igual ao filme de Preminger).No correio temos o primeiro encontro de Germain e Vorzet… Ele é confrontado com a infidelidade dele com sua esposa, mas num tom muito brando, sem ciúmes ou nada. Deveras civilizado. Vorzet conta que outros receberam as cartas também, contando sobre Germain ser um ‘criador de anjos’. Vorzet frisa que O Corvo é um doente, não um caluniador. Igualmente, ele tenta abrir o leque de possíveis suspeitos.Outras cartas começam a chegar nos colegas médicos também. O humor aqui é muito mais refinado, sem dúvida. Todos começam a receber mais cartas sujando a reputação de Germain (sujando apesar de ser verdade). Aqui, Germain e Laura são amantes mesmo. A cidade se põe contra ele porque sujeiras sobre todos estão saindo junto com as dele.
le_corbeau_052Dr. Vorzet visita Germain e faz comentários de suas mobílias, que parecem ser caras… e que todos estão fuçando o passado dele também. (Preminger aqui o fez um colecionador de Relógios) – Vorzet diz que suspeitam de Marie Corbin, sua cunhada. Germain fica com Denise também após ver que ela manca… Ele quer ela também. Germain no dia seguinte entende que perdeu uma cliente por conta dos boatos… Logo se encontra com Laura na igreja em segredo, por meio de uma carta, mas tanto Vorzet como Marie  e Denise receberam uma nota também (falsamente) – cilada para juntar a todos – e criar suspeitas.le_corbeau_061 le_corbeau_062 le_corbeau_063Marie aparece também e diz que François (o paciente da cama 13) (só apareceu naquele breve instante do filme) se suicidou por causa de uma carta anônima.
Na frente do doutor elas assumem uma atitude completamente amigável. Preminger põe em evidência a dicotomia Privado/Público. Uma dica de que elas não são tão gentis quanto aparentam ser.
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Logo vamos a uma paciente, Denise, que pede a presença do jovem doutor com urgência… e descobrimos que era mentira dela e que é hipocondríaca e apaixonada… Uma cena em que ambos os diretores executaram com similaridade. Fazem questão de mostrar ela pedindo para ele escutar seu coração, deitando a cabeça no seu peito.the_13th_letter_013the_13th_letter_014 the_13th_letter_015 the_13th_letter_016Após essas introduções, Cora reaparece com uma carta anônima em mãos, preocupada com rumores… e sonda os sentimentos do jovem doutor. Ele não tem interesse algum nela e ela evidentemente sim. De algum jeito essas cartas os unem, apesar de intimar o Doutor para sair da cidade e parar o seu suposto caso com Cora.the_13th_letter_017Aqui o diretor dá um detalhe curioso ao Jovem Médico: Ele é um fanático por relógios… (digo curioso pois não é explorado).Com a trama geral exposta, subtramas começam a aparecer. No hospital, a mãe de Jean-Louis, um soldado que voltou da guerra, cuida dele e briga com a irmã de Cora por não estar cuidando bem dele.the_13th_letter_018Dr. Laurent conversa com Pearson sobre as cartas e conta que ele também recebeu uma… e agora Pearson começa a levar a sério as ameaças até então ignoradas, pois está chegando ao ouvido do colega de um suposto caso envolvendo sua esposa.the_13th_letter_019Dr. Laurent começa a falar que essa pessoa deve ser um maluco e dá dicas já que Agir contra si próprio é um sintoma psicopatológico… (abrindo possibilidades de quem é o autor anônimo até para o próprio dr.) – Mais cartas chegam e a ameaça se agrava. Jean Louis reclama novamente da irmã-cunhada-ex-amante, Marie. Outros doutores recebem cartas também, colocando todos contra Pearson e levemente uns contra os outros. Dr. Laurent vira o investigador do hospital sobre o assunto e temos então o começo do *whodunit*, nos perguntando quem é que está escrevendo essas cartas. Em ambos os filmes, se revela que Denise é manca, e então o protagonista se apena dela… Com um fade to black ficam juntos… Uma carta chega intimando ele a ir encontrar o autor anônimo na igreja.the_13th_letter_020 the_13th_letter_021Lá está Cora e acusa sua própria irmã disso. Dr. Laurent aparece e Marie também. A música dramática e a camera acompanhando Marie nos dá indícios cinematográficos de suspeita.the_13th_letter_022

Clouzot caracteriza o Jovem Doutor como alguém durão e firme. Preminger o retrata como mais inocente. Parece não se dar conta de sua boa aparência e sexualidade. O mesmo acontece com a Jovem Esposa, só que as coisas se invertem. Originalmente o Jovem Doutor e a Jovem Esposa são amantes e o Velho Doutor é, por falta de melhor palavra, um corno. Preminger parece deslocar o eixo sexual do filme para a esposa, Cora, e faz da relação de ambos uma relação platônica. Com Denise, Preminger a manteve como uma sedutora ardilosa, porém um pouco menos promíscua do que no primeiro filme. Voltarei para esse tema mais adiante. Já o Velho Doutor e a Cunhada são bem parecidos em ambos. O Velho Doutor sempre ressalta a patologia do doente que se esconde atrás das cartas (ele mesmo). A cunhada sempre demonstra sua antipatia também. Porém Preminger atenua um pouco também essa qualidade nela.

O escritor anônimo se faz presente e vemos a trama se tecer a partir das cartas, demonstrando o poder de manipulação dele levando todos a se encontrarem na igreja e levando o soldado ferido ao suicídio. Em Clouzot, a presença desse soldado e sua mãe é mais enfática. Já em Preminger nem tanto. Clouzot utiliza o suicídio como um marco no filme. É o ponto onde a massa ganha vida. Preminger opta pelo caminho oposto e faz do suicídio apenas um efeito colateral da loucura do escritor anônimo… Coisa que faz com que o funeral e a proscissão não tenha muito lugar no filme… Tem um momento onde ele mostra com um plano sequencia todos os personagens, como se todos fossem culpados… O que chega a ser interessante isoladamente mas não tem efeito, como disse antes sobre a cena inteira, sobre o filme como um todo.

No funeral, dizem para Marie ir embora porque todos suspeitam dela.

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Uma carta cai do carro fúnebre e todos evitam pegar ela. Uma criança pega e o professor a lê. Na missa todo o povo começa a ler. No climax do discurso contra O Corvo o povo acusa Marie de ser O Corvo. A mãe da vítima apenas olha, mal aguentando a vida.
le_corbeau_071le_corbeau_073Ela vira notícia e logo o povo está nos portões do hospital, querendo o sangue de Marie. A sequencia de Marie fugindo é linda… não vemos ninguém correndo atrás dela porém escutamos. É muito boa mesmo, acentuando apenas o efeito psicológico da fuga. Sempre da direita para esquerda de quadro. Ela se encontra no seu apartamento todo acabado. Ela não é culpada do crime, porém a culpa e o medo a esmaga.le_corbeau_072 le_corbeau_074 le_corbeau_075 le_corbeau_076 le_corbeau_077 le_corbeau_078 le_corbeau_079 le_corbeau_080 le_corbeau_081Ela é presa e Dr. Vorzet quer convencer, com estatísticas, que tudo corre bem. Suspeitam de Germain mas Vorzet repete o chavão “Se ele pode ser suspeito, eu também posso”. Vorzet faz questão de deixar a possibilidade aberta do Corvo ser qualquer pessoa… Como um ato narcisista. Como se isso ferisse seu jogo. Mas ao mesmo tempo prefere que Marie seja a culpada.le_corbeau_085Germain, mesmo assim, apesar de sua inocência perante o conteúdo das cartas, decide ir embora depois da atitude idiota do povo. Os diálogos são excelentes:
Germain: As pessoas não mudam. Um homem decente continua um homem decente e…
Denise: Uma mulher continua uma prostituta? Talvez esteja certo, Doutor. Então eu tenho dó de você. Você sempre representará o mais desanimador e estranho na vida.
Germain: Um idiota? le_corbeau_093Um burguês! O mal do mundo! Neste filme, Germain ama as duas mulheres.

Jean Louis, nosso soldado enfermo, se suicida por causa de uma carta dizendo que ele tinha câncer terminal… No funeral cai uma carta do caixão. Ninguém quer pegar… esse ato sugere uma solução.
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Mas um menino pega a carta e Michelle, a irmã de Denise, pega para ler. Agora todos estão envolvidos. O prefeito manda prender quem quer que seja.the_13th_letter_027the13thletter2_02 the13thletter2_03Dr. Laurent abre o leque e conta de uma loucura a dois… que um comanda o outro. Interrogam Marie e rapidamente mandam prendê-la sem provas, só pela suspeita em si. Dr. Pearson e Denise estão juntos agora… e felizes. Mas a sociedade da vila começa a rejeitar o Dr. Pearson… O novo casal fica preocupado: “Se a mentira se repete vira verdade…” – Dr. Pearson revela seu passado a Denise… (que ele é bonzinho, sua mulher morreu, etc…)the_13th_letter_028 the_13th_letter_029 the_13th_letter_030Este é um hiato na história que não adiciona muito, eles até se afastam da cidade para esse momento… Muito diferente de como Clouzot o faz. Aqui parece ser um detalhe sobre o protagonista a ser adicionado por mera explicação. Em Clouzot, isso vem como um tapa na cara de outros personagens e para nós. Aqui parece que o  chavão nazista atribuído a Goebbels “Se a mentira se repete acaba virando verdade.” era para ser direcionada somente ao espectador, mas não acho que foi feito com tanto sucesso.

Clouzot trata essas cenas com maestria. O povo, a massa, aparece como personagem de peso e exige sangue do culpado. Como ressaltei, parecia que ambos sugerem uma solução ao caso: não pegar a carta do chão. As pessoas caminham olhando para a carta e não param para ler. Como espectador eu senti que o pesadelo tinha saída. Mas a história tem que girar… e em ambos os filmes quem pega a carta é uma criança. Preminger fez questão de manter esse detalhe também. Porque? Porque é a curiosidade humana que não sabe, não aprendeu a se controlar. E assim, os filmes continuam… O escritor anônimo culpa a cidade por não expulsar o Jovem Doutor da cidade. Em ambos os filmes culpam a cunhada e a prendem. Preminger retira a massa. Porque? Porque não mostrar a cunhada fugindo, esmagada pelo peso das acusações? Uma das melhores cenas do filme!.. Então uns dias passam e o Velho Doutor usa de dados estatísticos para provar que as coisas se acalmaram depois que a Cunhada foi presa. Em ambos os filmes tem esse momento em que o Jovem Doutor conversa com Denise sobre ir embora. Clouzot o mantém dentro da história, no quarto de Denise, e ela é bruscamente sincera. Preminger já os levam para longe, como se saíssem do filme para olhar a situação de fora, e a confissão de sua vida passada é resumida aqui, contando para Denise a verdade – em Clouzot, isso se dá um pouco depois, em um momento onde o Jovem Doutor confronta a estupidez de seus colegas e da elite da cidade – coisa que Preminger também optou por cortar.

A cena da igreja acontece, com uma mise-en-scene superior à de Preminger.
le_corbeau_094 le_corbeau_095 le_corbeau_096 le_corbeau_097O Corvo isenta Marie da culpa, sempre culpando o povo como um coletivo – culpado de não ter expulso Germain *falarei sobre isso depois*. As reflexões sobre o serviço postal é muito bom também, com um toque de humor que justifica a presença da cena.le_corbeau_100 le_corbeau_101le_corbeau_105 le_corbeau_109A hipocrisia é latente. É incrível. O subprefeito, então fica sabendo pelos jornais que vai ser substituído. Os meios de comunicação-informação com o ser humano, na época de então é posta em evidencia (imagine hoje!). Germain confessa que ele não é quem ele era (por metade) – que trocou a identidade depois da mulher e bebê morrerem nas mãos de um ginecologista. Seu nome real é Dr. Monette e era um famoso e respeitado neurocirurgião. Trocou a identidade e se mudou pro interior para dar assistência para mães. Tentam bajular ele mas ele não compra a bajulação.
le_corbeau_111 le_corbeau_112 le_corbeau_113O Corvo continua a assediar a cidade, enviando cartas para famílias comuns, revelando segredos – uma menininha tenta se suicidar por uma carta que dizia que seu pai não era seu pai – Dr. Vorzet sempre alfinetando… Contando da psicologia do escritor anônimo, termina o discurso falando sobre deficiência, e o diretor logo introduz Denise mancando na cena, levantando suspeitas. O Doutor então faz o teste com os 18 da galeria, todos tendo que escrever cartas para comparar a caligrafia. A cidade toda espera ansiosa. O dia inteiro passa. Todos ficam exaustos. Denise desmaia.le_corbeau_129 le_corbeau_131A cena da luz, do diálogo entre o bem e o mal aqui é mais convincente. Mais natural.Vorzet: Você acha que as pessoas são todas boas ou todas más. Que a luz é o bem… e escuridão o mal. Mas onde cada um começa?..le_corbeau_147 le_corbeau_148 le_corbeau_149 le_corbeau_150 le_corbeau_152 le_corbeau_154 le_corbeau_155Vorzet o chama para tentar parar a luz e a lâmpada o queima, como se ele provasse um argumento com isso. Mas, o tempo passa e a lâmpada para – Germain dorme. O diretor fez um statement importante aqui, fora do diálogo do dois, porém podendo passar despercebido: a lâmpada para de se mover com o tempo. Tempo é o que pode parar a relativização do bem e do mal. “Só o tempo dirá.
Ninguém mais recebia cartas desde a prisão de Marie. Então, do céu da igreja, uma carta cai.
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Todos os suspeitos estão no 2o andar, de onde poderia ter vindo a carta… menos o Dr. Laurent e Pearson. Decidem fazer um teste para verificar a caligrafia com as 18 pessoas que estavam no 2o andar. Nos revelam que a mãe de Jean Louis está trabalhando no hospital e procurando o assassino também e que tem em mãos a navalha que o filho usou para se suicidar… De repente, Cora do nada diz para Denise que Dr. Pearson e ela são amantes – o que nos deixa meio perplexos.the_13th_letter_033A suspeita sobre Cora aumenta… E logo Dr. Laurent mostra para Dr. Pearson que a caligrafia do autor e de Denise são iguais…the13thletter2_05Faz um discurso interessante sobre o bem e o mal, que eles podem trocar de lugar, dependendo de onde você está. Assim como a luz e a sombra são relativas..the13thletter2_06 the13thletter2_07 the13thletter2_08 the13thletter2_09 the13thletter2_10 the13thletter2_11 the13thletter2_12 the13thletter2_13 the13thletter2_14 the13thletter2_15 the13thletter2_16 the13thletter2_17 the13thletter2_18 the13thletter2_19Aqui o Velho Doutor ri e chama o Jovem para sair da sala para continuar a história… Compare ao lado e a diferença é gritante.

Ambos são bem parecidos nessa sequencia, mas Clouzot o executa dando ênfase nas pessoas, nas ações e reações. Utiliza o espaço da Igreja para mostrar todos debaixo do mesmo teto. Preminger se restringe apenas para poucos planos fechados.
Como falei anteriormente, Clouzot usa o Jovem Doutor para confrontar a ignorância dos colegas dele. Preminger opta por não fazer isso.
Preminger mantém o diálogo sobre o bem e o mal, luz e sombra… Mas o Jovem Doutor não dorme… Ele apenas segue o Velho Doutor na sua retórica. Ambas decisões importantes, definindo seus protagonistas de um jeito bem diferente do original. Seu herói é mais ingênuo e parece que pego no meio de uma trama cujo não sabe muito bem como se posicionar. Acompanha os eventos como uma vitima que caiu na boca do povo por uma fofoca.
Clouzot o caracteriza como um ser consciente e participe do destino da humanidade. Eu reforço isso pois é importante. Seu herói é acusado de coisas que ele é culpado! Mas, como homem, ele tem sua própria moral. Já em Preminger, nosso Jovem Doutor parece uma mosca quase sem vontade de se debated numa teia de aranha. Ele apenas cumpre seu papel…

Germain então encontra a mãe do soldado que se suicidou. Ela ameaça dizendo que vai vingar seu filho:
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(Excelente!)
Após o exame dos 18 suspeitos e Germain dormir na mesa, ele entra no quarto de Denise e abre uma carta falando que Denise está grávida dele.le_corbeau_161Ele se esconde enquanto ela se aproxima e entra no quarto. Ela se põe a escrever: sua letra é igual ao do Corvo. Mais uma leve curva nas nossas suspeitas. O Corvo vira uma figura útil para qualquer um para contar verdades e se esconder.le_corbeau_162 le_corbeau_163 le_corbeau_164 le_corbeau_165 le_corbeau_166 le_corbeau_167 le_corbeau_168 le_corbeau_169Ótima cena dela pedindo para ele olhar nos olhos dela. Nada é dito. E olhamos junto a ele. Sua idéia muda após olhar nos olhos.le_corbeau_174 le_corbeau_175 le_corbeau_176 le_corbeau_177Clouzot chama ao seu protagonista para Olhar! Para ver! Que isso é mais que lógica e o que fatos podem indicar. Ela então manda Germain para ver Laura. Diz que Laura ligou para ela sobre uma carta que ela recebeu…
le_corbeau_189Porém ao ir lá, Laura diz que não recebeu nada… Mas ao sair eles vêem a carta na caixa postal e abrem. Germain volta a suspeitar de Denise porque não tinha como ela saber da carta… Laura o consola… porém ao ver sua mão, encontra marcas de tinta. Ele faz as ligações lógicas e descobre que Laura é o Corvo.le_corbeau_190 le_corbeau_191 le_corbeau_192 le_corbeau_193 le_corbeau_198 le_corbeau_199Dr. Vorzet aparece e Germain conta tudo e mostra as provas. Vorzet confessa que ela louca e não teve coragem de contar. Conta como ela era louca por Germain e as cartas eram seu modo de lidar com isso… Germain tem compaixão e diz que não vai levar para a polícia. Então Vorzet manipula a situação para que Germain assine a ordem de internação.le_corbeau_200 le_corbeau_201 le_corbeau_202 le_corbeau_203 le_corbeau_204 le_corbeau_205 le_corbeau_206 le_corbeau_207 le_corbeau_208Laura então escutou tudo e confessa que escreveu a primeira carta mas que o marido se aproveitou e ele é o Corvo. Dr. Vorzet manda Germain atender Denise que caiu das escadas enquanto chama uma ambulância para sua mulher. Denise acredita em Laura e diz que não é ela o corvo. Germain acredita e vai até a casa dos Vorzets e logo após Laura ser levada.le_corbeau_209 le_corbeau_210 le_corbeau_211 le_corbeau_212 le_corbeau_214 le_corbeau_215 le_corbeau_216 le_corbeau_217Germain vai confrontar o doutor e encontra este morto com a navalha do soldado que se suicidou. A mãe sai pela porta aberta… Através da janela, Germain a vê indo embora. Fim.
Dr. Pearson confronta Denise e nos é mostrado que a caligrafia dela, na verdade, é diferente!
the13thletter2_20 the13thletter2_21 the13thletter2_22 the13thletter2_23 the13thletter2_24 the13thletter2_25 the13thletter2_26 the13thletter2_27 the13thletter2_28 the13thletter2_29 the13thletter2_30 the13thletter2_31 the13thletter2_32
e ele então jura que não tem um caso com Cora: chegam a conclusão que Cora está louca e é a ‘Scarlet Pen’. Confesso que essa cena foi um pouco penosa de assistir. Dr. Pearson vai até a casa dos Laurents para confrontar eles. O plano funcionaria se Cora não tivesse contado para Denise do caso-fantasia dela com Dr. Pearson… Dr. Laurent joga sua mulher ‘under the bus’ e conta que ela é doente mental e etc… “e que um doente mental acaba por se revelar sempre”.the_13th_letter_039the_13th_letter_040the_13th_letter_041the_13th_letter_042the_13th_letter_043the_13th_letter_044the_13th_letter_045the_13th_letter_046the_13th_letter_047the_13th_letter_048the_13th_letter_049the_13th_letter_050the_13th_letter_051Dr. Laurent revela que ela, muito mais jovem que ele, começou a olhar outros homens… Assim aparenta que o motivo do crime é revelado… e ele pede para o Dr. Pearson para internar sua esposa.the_13th_letter_052the_13th_letter_053the_13th_letter_054the_13th_letter_055the_13th_letter_056the_13th_letter_057the_13th_letter_058the_13th_letter_059the_13th_letter_060the_13th_letter_061the_13th_letter_062the_13th_letter_063the_13th_letter_064the_13th_letter_065the_13th_letter_066the_13th_letter_067
No hospital, antes de Pearson entrar no quarto de Cora, vemos a mãe de Jean Louis limpando… Pearson entra e diz que não acreditou no marido dela. Cora revela a verdade que ele era quem dizia para ela escrever as cartas. E outras verdades também… Ela era louca e apaixonada por Pearson e escrevia as cartas no começo… E o marido usou isso para afastar ele dela. Logo, Pearson vai ao confronto com Dr. Laurent e encontram ele morto. A mãe de Jean Louis o matou com a navalha dele.the_13th_letter_068the_13th_letter_069the_13th_letter_070the_13th_letter_071the_13th_letter_072A ‘cidade’ pede seu ‘perdão’ e o final é feliz.the_13th_letter_073 the_13th_letter_074 the_13th_letter_076 the_13th_letter_077

OK! Desculpe por fazer você ‘ler’ praticamente a mesma história 3 vezes. Porém preciso re-organizar meus pensamentos e delinear os filmes assim me ajuda na tarefa e acredito que te ajuda também a acompanhar o texto, tendo visto ou não os filmes.

Le Corbeau foi feito em 1942, na França, bem no auge da Segunda Guerra Mundial, onde, como sabemos, ela foi ocupada de 1940 a 1944. Considerando o contexto, sem pesquisar nada sobre o filme, considero que Le Corbeau não seja um filme político ou declarado de resistência, mas antes um reflexo de um aspecto, de um fragmento, da sociedade humana. Ele nos leva do pequeno, do insignificante e irrelevante, leia-se de uma fofoca, ao grande, ao significante e relevante: a Comunidade, e como este último está composto do primeiro. Como algo tão pequeno mexe com o todo. Nos leva também da vida à morte: do criador de anjos e cuidador de mães ao soldado que se suicida – e ao mesmo tempo, do homem ignorante ao cônscio. Do indivíduo à massa. Nesse aspecto, o filme é altamente inteligente e político – leia-se: subversivo – pois revela para a massa, o espectador, sua condição de massa. Sua condição atual frente ao que lê.

Através de uma trama banal, onde uma pessoa começa a criar intrigas através de cartas anônimas, a pergunta é feita ao espectador: você saberia distinguir? No que você acreditaria? Pensando na época só consigo imaginar a propaganda nazista querendo instalar sua narrativa na França. Mas a questão é mais profunda… Em parte o autor responde isso naquele Evento Marcante – o suicídio do soldado e seu funeral: se você não é um dos participantes da trama, você seria alheio… acompanhando com maior ou menor intensidade o desenrolar da história, porém coletivamente, como massa, estaria injuriado e cegado pelo desejo de justiça – e aqui o fato do escritor ser anônimo é tão importante: permite a projeção de todo o mal para a pessoa mais odiada – a enfermeira Marie. Aqui acho que ele também pede para os soldados-pessoas do mundo para Pensar. Em outras palavras: a falta de seu discernimento é suicídio. E como massa, também, você está mais predisposto a cometer injustiças… Simplesmente porque você não sabe o que acontece. As investigações acontecem entre portas fechadas… Não tem como pedir para a multidão fora do hospital saber o que é fato. O que é real. Nós como espectadores, que acompanhamos uma câmera que escolhe o que nos contar, talvez não façamos tal reflexão. Apenas nos sentimos privilegiados, e até arrogantes, por pensar que sabemos… Mas enfim… Quem mais indicada para retificar a situação, já que o sistema não funciona e a comunidade não se importa, a não ser a Mãe do soldado? A mãe ilusão. (tenho o costume de não investigar nada sobre o filme antes de escrever, e graças a um amigo francês, conhecedor da história do próprio país, me contou que a trama tem muito a ver com o que acontecia na época: os franceses delatavam uns aos outros para os nazistas. também me contou que Clouzot fez esse filme com o aval dos nazistas, porém ao verem o filme pronto, foi vetado, por ser um excelente exemplo da cultura francesa [fora a crítica contida aí dentro]).

The 13th Letter vem 10 anos depois de Le Corbeau, feito no Canadá, 7 anos depois do fim da Segunda Guerra e com o mundo mergulhando na polarização entre EUA e URSS. Tendo isso em conta, o que uma carta anônima significa? Em Le Corbeau, o escritor assina o título do filme: “O Corvo” – e em The 13th letter é “The Scarlett Pen” (A Pena Vermelha). Será que este é um filme anti-comunista onde o escritor anônimo-vermelho está instaurando caos na comunidade pacífica? Pela história do diretor, não acredito ser esse o caso, porém tudo é possível. Talvez, pela história da libertação francesa, o diretor quis passar uma mensagem parecida aos seus colegas que estavam a delatar uns aos outros ao FBI. Porém com um toque de esperança… Muito diferente também do final quase profético de Clouzot.

Como eu disse antes, o filme “Le Corbeau” é, ao meu ver, com todo o respeito ao mestre Preminger, muito superior à “The 13th Letter”. O que me causa muita curiosidade é que foi um filme Produzido e Dirigido por Preminger. Ele tinha todo o poder sobre o filme… e criou um filme quase engessado. Quase um filme para a TV (da época). Sim, cada filme é um olhar diferente sobre o tema, uma expressão única de cada autor, sem dúvida, mas o filme de Preminger não tem a profundidade do primeiro.

A diferença dos dois é enorme. Clouzot fez um filme sobre a consciência e inconsciência, individual e coletiva, demonstrando paradoxos e uma moralidade dúbia. Sugere uma resistencia crítica (e política) frente a tais eventos. Algo a ser lidado, em primeiro Lugar, individualmente. Preminger, assim como Clouzot, mas utilizando elementos do gênero Noir, sugere a relatividade dos opostos (porém sem tanto sucesso ao meu ver), mas parece tratar seu espectador como coletivo, como massa (talvez por isso eu sinta que parece feito para a TV). Seu final é esperançoso e clama ao espectador uma revisão de seus conceitos. Os cidadãos agradecem o perdão do protagonista pois seus pré-julgamentos estavam errados… Já Clouzot é mais como seu protagonista, chama aos cavalheiros que o prejulgaram de idiotas e diz que a questão só se resolve com as próprias mãos. Trata seu espectador como indivíduo apesar da condição de massa. Lembra o espectador que, individualmente e coletivamente, ele é responsável por seus atos. (Uma nota digna para os dias de hoje)

Logo, Clouzot criou um suspense que envolve seus protagonistas em diferentes níveis. Com dualidades que se transformam em nuances de cor, e então nos chama para usar nosso poder de descriminação. A função básica da consciência. Preminger decidiu refilmar Clouzot, transformando a trama em um drama íntimo composto por um casal de loucos. No filme de Preminger o Jovem Doutor e a Jovem Esposa não são amantes… e Denise não tenta imitar a carta do Escritor Anonimo no final… Porque? Porque eliminar do filme bons elementos que dão interesse e profundidade aos personagens, terminando o filme resolvendo um “mistério”, sem ter criado suspense algum?… Não sei responder direito essa pergunta.

Resumindo… Clouzot fez uma obra prima. Preminger parece ter criado uma versão mais barata do filme para repassar uma mensagem importante para seus vizinhos e colegas de então… Achatando-o e escondendo a mensagem dentro do gênero… É o que me parece. Porém, ao olhar de perto, não encontro a mesma mensagem de Clouzot… pois a força do filme, seus personagens, suas ambiguidades e profundidade, simplesmente não está. É uma versão “ovelha” de um filme com muito mais personalidade.

Sinto que deixei certos elementos e nuances passarem… Mas ok. Não era meu objetivo dissecar ambos os filmes. Mas antes olhar para e refletir sobre suas diferenças.

Permitam-me uma breve digressão:
O que é legal é que mesmo em 1942 ou 1952 o tema ainda é válido para a sociedade. O tema era evidente ao ponto desses filmes precisarem serem realizados. Hoje o tema é gritante! Porém ensurdecedor. Assistimos ao filme longe de tudo, em nossas cadeiras, em casa, observando à distancia essa vilinha que pode ser qualquer lugar, com sua fofoca rodando em cartinhas escritas à tinta. Mas vamos ao computador e lá estamos, em nossa condição de massa, com um comportamento de massa – online! Confesso minha perplexidade frente à internet. Ao mesmo tempo que temos um perfil, uma linha no grande banco de dados virtual-mundial com nosso nome, foto, gostos, históricos de busca, etc, etc, etc, etc e com isso, ao se conectar com outros, possamos iniciar revoluções, ao mesmo tempo, à medida que o algoritmo é evoluído, perdemos nossas vozes no mar de opiniões. As vozes se tornam iguais e seu conteúdo e mensagem, velha e batida: O que você vê é enviesado no que você já viu. Então nada realmente novo te chega. Nada choca. Apesar de novo, você está acostumado a isso – A narrativa foi instalada e nada é novo ou absurdo. Absurdo apenas dentro do absurdo que você já conhece. Enfim, acredito que nossos limites como espectadores estão sendo testados… e o algoritmo sendo aperfeiçoado para por as rédeas na massa. Não há mordaça… mas sim uma diluição da mensagem. Ninguém para ouvir. #hashtag #hashtag #hashtag e logo se torna normal, banal e sem força. Acho que não é só isso a que se limita a internet, por favor, mas esse aspecto não pode passar batido.

Esse filme poderia ser refilmado hoje, sem duvidas. No Brasil, nos EUA, na Argentina, em qualquer lugar. Eu peço ao leitor repensar, ver, olhar nos olhos, da narrativa que está consumindo diariamente.

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