Interstellar

Spoilers ahead!

Vou começar dizendo que Interstellar é um baita filme e me arrependo muito de não ter ido vê-lo no I-Max… Porém, como um bom filme do Christopher Nolan…

O filme nos leva para algumas quantas dezenas de anos à frente de nossa época, onde uma praga estava devastando o planeta todo. Militares, engenheiros e profissões altamente qualificadas não são mais necessárias: precisamos de fazendeiros. A humanidade precisa de comida. É uma época extremamente crítica ao passado, onde a ‘versão oficial da história’ diz que o homem nunca pisou na lua e quem acredita nisso é tão louco quanto quem acredita em fantasmas. Claro que nesse futuro próximo a tecnologia também evoluiu então temos alguns robôs ajudando nas colheitas e até drones que se auto alimentavam de energia solar esquecidos voando pelo céu. Mas ninguém se preocupa com isso, apenas com a comida. A sociedade é constituída principalmente de fazendeiros. Nesse cenário sem esperança está a família de Cooper, um fazendeiro viúvo (também engenheiro e piloto) que cuida de sua fazenda junto a suas crianças, 1 menino e 1 menina, e seu sogro. Então, uma anomalia no campo magnético-gravitacional da terra acontece, dando um tipo de curto nos chips das máquinas – coisa que chama a atenção de Cooper. Paralelamente a isso, sua filha diz que um Fantasma está comunicando com ela através da estante de livros em código Morse. Ninguém acredita nela até que Cooper vê com seus próprios olhos e agora era uma nova mensagem e em Código Binário. Esse código continha a localização de uma instalação secreta: A antiga NASA (Uuuuh – Um suspense bem gostosinho).

Aqui, a parte dos novos personagens que nos são introduzidos (obviamente 2 do elenco do Batman está entre eles), nos dizem que “Eles” escolheram Cooper para se juntar à equipe. Mais mistério ainda – quem são Eles? – eek! – Eles também colocaram um Wormhole (Buraco de minhoca) perto de Saturno, onde já foram 12 missões feitas entrando nele para descobrir novos planetas que sejam habitáveis para a humanidade.

Então a NASA, mais especificamente Dr. Brand (Michael Caine), tem 2 planos: A – que Cooper comande uma última nave que vá verificar quais planetas das outras missões podem ser habitáveis porque as outras missões eram só de ida, não tinham como voltar, então eles só iriam saber disso uma vez que cruzassem o Buraco de Minhoca para poder receber os dados que as sondas de cada missão mandavam e então eles voltariam para a Terra, porque até lá o Dr. Brand teria solucionado sua equação para controlar a gravidade e colocar uma estação completamente habitável e auto-sustentável no espaço – e os tripulantes voltariam a ver suas famílias. Interessantíssimo… e plano B era que essa última missão levasse uma “bomba de colonização” usando toda a energia da nave para recriar a atmosfera da Terra em um desses planetas e assim garantir a sobrevivência da espécie.

Claro que Cooper, um explorador nato e frustrado com sua função de fazendeiro na Terra, aceita a missão e abandona sua família, contra os protestos de sua filha Murph. Contagem regressiva e já está decolando. Tivemos uma sequencia poderosa e dramática e já estamos no espaço, sem perder tanto tempo com os preparos. Lindo.

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Então eles vão através do buraco de minhoca até a outra galáxia. Tenho que agradecer ao diretor (e também roteirista) do filme por dar um tempo em explicar certas coisas. Normalmente eu não gosto disso, mas aqui era preciso para que as coisas fossem verossímeis e inteligíveis. A explicação dada no filme Event Horizon também era boa, mas o visual que Interstellar nos dá é bom demais. Então lá vão eles e pegam os dados das sondas e decidem o que fazer. Vão a um planeta onde, devido a sua gravidade, o tempo nele passa muito mais rápido do que na Terra. Então, 1 hora lá, se passam 20 anos na Terra. Então os cientistas dizem: “É a relatividade do tempo.” – quase que um tapa na cara de quem não entende isso, quase que dizendo: “Vai, essa é uma teoria que já tem 100 anos de idade, já era pra você saber.” Então, sem direito a protesto, aceitamos sem mais nem menos e é isso: eles passam umas horas lá por causa da estupidez da Dra. Brand e na Terra se passaram 23 anos… Esse é um momento genial do filme. Eles voltam à estação-nave e recebem as mensagens que vieram da Terra nesses 23 anos. De repente a filha está na idade do Pai e o filho ja casou, teve 2 filhos e um deles até morreu. Matthew McConaughey dá um show.

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É bonito de se ver. Do mesmo, eles tem que realizar a missão e vão até o planeta que parece ser o mais promissor, onde o melhor dos melhores astronautas foi parar. Lá eles acordam esse astronauta, Dr. Mann, e é uma boa surpresa ver o ator que escolheram para ele (não vou nem dar esse spoiler porque foi uma surpresa gostosa). Então Dr. Mann vai relatando como o planeta é promissor e etc… Paralelamente, na Terra, a filha de Cooper, agora uma Doutora que trabalha na NASA, começa a descobrir certas coisas. As duas narrativas são contadas juntas, na Terra e nesse planeta, e os ambos pai e filha são traídos. Descobrimos que o Dr. Mann estava mentindo e que o Dr. Brand também. Que o plano A era uma farsa e que só existia o plano B… porque era impossível solucionar a teoria para manipular a gravidade – para isso era necessário obter Dados de uma Singularidade que só poderia ser obtida atravessando um buraco negro.

Cooper e Mann lutam. Mann foge e rouba a nave e quer voltar para a Terra. Só que ele não consegue acoplar na estação-nave e quase destrói tudo (animal essa cena, fiquei tenso). Na terra sua filha luta com seu irmão para salvar o filho e mulher do próprio irmão e vai na biblioteca ver se tem alguma mensagem do Fantasma! As duas narrativas chegam a um clímax incrível. Cooper consegue acoplar sua nave na estação e salva a Dra. Brand mandando ela para o planeta que ela queria ir (onde estava um astronauta que ela amava) e Cooper mergulha com velocidade máxima no buraco negro.

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Aqui é um momento mágico. Entramos em alguma dimensão bizarra e descobrimos que o fantasma da estante era o próprio Pai, através de uma Singularidade do espaço-tempo. (e acho que tem algo de Teoria das Cordas mas realmente não entendo disso)


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Ele ajuda sua filha e lhe dá as coordenadas do começo do filme e também os dados que ela precisava para fazer a fórmula do Dr. Brand funcionar para controlar a gravidade. ‘Eles’ eram ‘Eles mesmos’! (ufa, nenhum alienígena)… Achamos que ele morreu e de repente, por algum milagre (Dele mesmo?) ele passa pelo Buraco de Minhoca sozinho e a estação Cooper (aquela que precisava da fórmula para funcionar e quase 100 anos se passaram desde que ele comunicou a formula para a filha) estava ali perto e resgatam ele. A estação funciona perfeitamente. Tem até uma casa em homenagem à memória da Dra. Murph e seu pai… Ele vê sua filha idosa… E parte novamente, como um bom explorador, para reencontrar a Dra. Brand que está sozinha no planeta X.

FIM!
Ufa! Quanta coisa.
Enfim…

A trilha sonora me lembrou muito da trilogia Qatsi composta por Philip Glass… Acho que foi chave para criar um clima de contemplação e suspense. Coisa que amei no filme.

O filme parece ter algo estranho. Muitas coisas acontecem. Muitas coisas são ditas. O mundo é diferente e o ser humano também aparenta estar diferente… Temos a sensação de ter recebido muita informação para processar mas ao mesmo tempo é uma trama comum que já vimos. O herói que tem que sair dos limites da tribo, vencer um antagonista (Mann) e conquistar o tesouro (Pérola no Buraco negro) para salvá-la. Mas enfim… O que mais me surpreendeu, o mais inverossímil para mim, no filme todo, não são as comunicações intra-dimensionais-espaço-temporais-aberrantes, e sim que nos EUA não tem mais militares. Isso sim foi difícil de engolir. Mas entendo o esforço… Porque nesses tipos de filmes, apocalípticos, os militares são sempre parte do problema ou estão presentes mais do que gostaríamos. Então acho que quiseram que a história fosse muito mais protagonizada pela sociedade e que ela tivesse um papel importante. A comunidade aqui fala mais alto até que os militares! Cooperação (Cooper) é a única maneira para sobreviver. Não subjugar uns aos outros. (Até tem uma explicação estranha no filme falando que os drones dizimavam povos e viram que isso não acabava com a fome então pararam – algo assim).

Acredito que o diretor sugere coisas interessantes, como a comunidade e esse futuro incerto. Coisa legal, mas que se fosse um pouco mais desenvolvida, elucidada, seria mais perdoável que a aclaração do final do filme: ele toma seu tempo em explicar exatamente o que está acontecendo… Em uma cena poderia ser muda e poderíamos entender… Poderíamos imaginar juntos. Estaria sugerindo um universo de possibilidades… Mas ele nos dá um ponto final. Fecha o filme.

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Assim como as entrevistas que permeiam o começo do filme e depois vemos que fazem parte do museu no futuro! Eu até pensei que iria escrever sobre isso mas o uso dessas entrevistas foram opacos. Não exerceu influência no geral. Apenas ajudavam a dar uma idéia sobre o tempo em que viviam. Coisa legal que abria o mundo para nós… E logo deixada de lado.

O clímax final com Dr. Mann também foi um giro um pouco forçado – mas digno de Hollywood – querendo apontar que não vão ser os robôs que vão nos matar, nem nada, e sim nós mesmos: os homens (Mann)… Meio bobinho… Mas ao menos divertido.

A barra é um pouco forçada, também, querendo dizer literalmente que o amor é que fez tudo isso acontecer… Ele diz isso! Acredito que isso poderia ter sido mais sutil. Sugerido. Não como algo mastigado e digerido.

Acho que o exemplo que Fritz Lang nos dá em Liliom é melhor: (veja apenas até o personagem se matar)

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Julie! Puta cena linda hein? Aqui o amor ultrapassa tempo e espaço! Mas fica aí… em uma camada suave que percorre o filme todo. Alimenta o filme…

Mas! Voltando ao nosso filme:

Claramente Interstellar é bem diferente de Liliom… Aqui o fator Tempo é muito mais acentuado e tem um papel narrativo. Fica a pergunta: então o ser humano evolui através de si mesmo, do futuro para o passado? Seu eu do futuro, através de uma aberração do espaço-tempo, uma singularidade, lhe ajuda no passado? Ousado!

Psicologicamente isso é compreensível! Pode até ser verdadeiro… Trocando “eu-futuro” por “personalidade”, constantemente recebemos (posso falar de mim) ajuda de nós mesmos para vencermos obstáculos que realmente ameaçam nosso mundo. Ajudas que nunca poderíamos imaginar. Forças que não sabíamos que estavam presentes em nós. Então algo, que desconhecemos em nós, nos fornece exatamente a ferramenta que precisamos para superar uma dificuldade… Como se fosse dado por alguém do futuro que sabe o que precisamos. Exatamente como alguns sonhos nos mandam mensagens que podem nos ajudar em diversas maneiras. Ou apenas está expressando, através do cinema e de teorias cientificas, um conceito da filosofia hindu que diz que o Tempo é Uno. Kim Ki-duk também expressa o mesmo, de um jeito muito mais sugestivo em seu filme Shi Gan.

Não é a primeira vez que Nolan brinca com a relatividade do tempo. Desde Memento até A Origem, ele brinca com isso. Com nossa percepção do tempo. Porém, curiosamente, acredito que a força de sua originalidade estava no começo… Em Memento. Lá ele realmente expressa o tempo como memória através do cinema. Memória como tempo. Memória como filme. Filme como tempo. Em Interstellar é tudo muito objetivo. O tempo passa e repassa normalmente. Qualquer um entende seus saltos… Em Memento nós damos os saltos.

Enfim, adorei o filme. Me diverti muito! E por isso sou grato e recomendo Interstellar para quem que seja. Adorei o filme…

Mas não deixo de sentir uma amargura… Porque o filme prometeu até seus 3/4 um universo de possibilidades onde nossa imaginação iria mergulhar, brincar e florescer junto. Em seu 1/4 final, ele fechou a janela e nos deu o Deus Ciência. Objetividade… Explicações verossímeis… Sim… Mas necessárias? Acredito que não.

No começo a filha diz ao Pai recém acordado de um pesadelo “Achei que você era o fantasma…” e ele diz “Não existem fantasmas.”

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e no final ele diz: “Eu era o fantasma” e ela: “Eu sei.”…
A situação dos personagens muda. Quem acorda no começo era ele e no final é ela. Quem tá na cama é ele e depois ela. Mas, independente de quando ou quem ou onde, ela sempre foi mais sábia.

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Nolan infelizmente dissecou o fantasma na cena onde ele está na quinta dimensão… Mas não é o fim do mundo… e não tira tanto crédito do filme… Acho que, infelizmente, estamos ficando acostumados a isso em seus filmes…

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Porém, e isso pode passar despercebido, quem salvou o mundo não foi a objetividade pura, e sim a crença em fantasmas de uma menina de 10 anos.

E essa é uma sugestão interessante…
Não deixo de sentir uma semelhança com o post de Boyhood…[/fusion_builder_column][/fusion_builder_row][/fusion_builder_container]

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