Fausto(s)

Me propus a um desafio um tanto complicado. Quis assistir 3 versões de Fausto e escrever sobre elas. Murnau, Svankmajer e Sokurov em um único post é um tanto difícil! Ainda mais porque o Fausto já é (acho) complicado na própria literatura. Conheço a versão de Goethe. Para escrever esse post achei que era minha obrigação ler a de Marlowe por ser considerada a primeira… então eu a li também.

Acho que todos devem ter uma idéia da trama da história de Fausto. A idéia comumente conhecida é que Fausto é um homem que faz um pacto com o diabo. Agora, para quê, não fazia idéia. Antes de ler o Fausto de Goethe, eu não tinha idéia do que era, apenas tinha essa vaga idéia… Na verdade, o meu primeiro contato com uma adaptação do Fausto, confesso, foi o filme “Endiabrado”. Não sei realmente se é uma adaptação mas com certeza usa a mesma trama: um homem faz um pacto com o diabo para conseguir satisfazer seus desejos. Mas como é uma comédia com Brendan Frasier, é bem inocente e termina que Deus e o Diabo eram amigos (o que é uma boa sugestão), e só queriam mostrar os caminhos errôneos que os desejos humanos podem levar. E a outra adaptação (na verdade é uma adaptação de misturas de obras literárias) é o Phantom of the Paradise do Brian de Palma (genial e recomendo).

Vamos por partes: vou tentar resumir os dois Faustos literários que conheço, pelo menos a trama e alguns aspectos para poder falar sobre os filmes e depois vou aos filmes.

Na versão de Marlowe, Fausto está cansado da ciência e quer mais: a Magia. Amigos lhe dizem como conjurar o demônio e ele o faz. Em uma encruzilhada em um bosque, aparece Mefistófeles, um demônio horrível, e Fausto pede para que ele apareça com uma aparência mais aceitável aos olhos. Fausto quer um servo que cumpra todos os seus desejos. Aqui é Fausto que conjura o demônio e quer ser poderoso. Nada lhe é oferecido do nada. Ele quer ser jovem e quer ser o todo-poderoso. Essas falas são muito interessantes:

F: “Condenação” não o assusta o termo, pois que Inferno e Elisio iguais lhe são, se ficar com os filósofos antigos…

e também quando ele pergunta como Mefistófeles se acha fora do inferno, se condenado pela eternidade:

M: Isto é o Inferno, e fora dele não estou! Pois pensas que eu, que vi de Deus a face, E os eternos prazeres do Céu provei, Não me atormento com dez mil infernos, Por estar privado do perene bem?

A privação do bem é o inferno! Como acreditavam as principais correntes de pensamento eclesiástico que o Mal é a privação do Bem, e que não tem substancia em si mesmo, aqui Marlowe parece nos indicar algo diferente. O inferno, e não o mal, é a privação do bem. O que soa mais como uma afirmação psicológica do que religiosa, colocando o inferno como oposto da idéia do reino dos céus de acordo com Lucas 17:20-21 “Não vem o reino de Deus com visível aparência. Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós”. Para nossa época infernal, a mensagem de Marlowe parece mais real.

É engraçado que, em Marlowe, ao contrário de Goethe, não há enganações por parte de Mefistófeles. O trato é sincero e reto. Fausto até pergunta o quê o Diabo ganha com sua alma e Mefistófeles lhe responde com um motivo crível. Assinam um contrato com sangue que durará 24 anos. Mefistófeles será seu servo por esse tempo, cumprindo todos os seus desejos. Fausto tem perguntas filosóficas e Mefistófeles lhe responde tudo o que quer saber. Fausto até chega a se arrepender do trato feito, mas vêm Lúcifer e Belzebu a lhe intimidar e o rumo é mantido. O tempo passou e Fausto viajou por todo o mundo com Mefistófeles e viu maravilhas e até pregou peças no Papa! Fausto fica famoso por seus poderes mágicos e é convidado para diversas cortes. No Palácio do Imperador, invoca a Alexandre Magno e sua Amante… No Palácio do Duque, usa Mefistófeles para impressionar a todos… Perto do fim, Fausto invoca Helena de Tróia. Um novo personagem entra em cena, chamado Ancião e re-lembra os pecados de Fausto. Fausto até se arrepende do trato mas Mefistófeles o alerta do que aconteceria. Honrando seu pacto, Fausto faz um último desejo: Um beijo de Helena. Helena o beija e com isso sua alma está condenada ao inferno. Fausto se arrepende mas nada o salva… e os diabos o levam. Uma tragédia.

Desconheço as implicações da obra na época. Não sei o que significava Fausto entrar no gabinete do papa e nem sobre o desdém aos céus e infernos. Porém imagino que era algo um tanto transgressor e perigoso.

(depois de ter lido a peça e escrito esse resumo encontrei esse resumo em espanhol que está mais completo: Wiki)

O Fausto de Goethe é bem diferente em estilo e linhas gerais. (Como eu li essa obra faz um tempo, não vou escrever aqui os versos que mais me interessou, como na obra acima, mas saiba que o Fausto de Goethe supera a obra de Marlowe em todos os quesitos.) O engraçado é que a parte 2 da obra de Goethe nunca é comentada ou incluída nas adaptações. Apenas a 1a parte é levada em conta: Comparada com a de Marlowe, temos elementos muito parecidos, claro, mas tem mudanças importantes na trama.

A história começa com 2 prólogos. Um do autor e outro sendo uma cena de backstage do Teatro (coisa genial). Depois vamos à aposta entre Deus e Mefistófeles sobre a alma de Fausto. Na verdade é uma cena que se passa no céu, se me lembro bem, onde os anjos elogiam a obra do Senhor, e aí Mefistófeles insinua que não há nada de bom lá e termina, repticiamente, conseguindo fazer a aposta com o Senhor sobre a alma de Fausto – um de seus favoritos. Não é a própria insatisfação de Fausto que o leva a buscar o demônio, como no de Marlowe… Aqui ele é um sábio que passou sua vida dedicada aos estudos para adquirir o máximo de conhecimento possível e reconhece os limites do saber, do conhecimento… Então ele volta sua atenção para a Magia mas esta também não lhe traz nada novo. Chega até a considerar o suicídio mas ao escutar pessoas na rua celebrando a Páscoa, ele desiste. Eu diria que é um Fausto mais humano. Que pensa, pondera, sofre e se arrepende… Mas sua trama é mais fantástica pois tem seu destino sendo apostado entre forças superiores: Deus e Mefistófeles. Logo Mefistófeles entra em seu quarto de estudo como um cachorro e após dialogarem, assinam o acordo selado a sangue. Os acordos também diferem: Fausto retomará seu aspecto jovial e Mefistófeles irá ser seu servo na terra, e Fausto, depois, será seu servo no inferno. Mas Mefistófeles só ganha se o prazer proporcionado a Fausto for tão intenso que ele diga algo como: “Desejo que este momento dure para sempre”. Enfim… Resumindo: Os dois saem pelo mundo e Fausto se apaixona por Gretchen (Margarida). Com a ajuda de Mefistófeles, ele consegue conquistá-la, porém, trazendo desgraça – por obra de Mefistófeles – para sua família e a ela mesma. É realmente bem diferente da de Marlowe… e é por aqui que termina a parte 1. Pessoalmente amei o Fausto de Goethe e nunca tinha lido algo parecido antes. As duas partes são incríveis. Nunca antes tinha visto uma obra com tantas referencias e conexões como essa.

Ao que interessa!

O Fausto de Murnau! É a primeira adaptação mundialmente conhecida do Fausto para o cinema (já houve inúmeras adaptações com o personagem: IMDB) e é uma adaptação da obra de Goethe – apenas da primeira parte. Penso que seria muito difícil adaptar a segunda parte para o cinema e creio que os realizadores se mantém à 1a parte por essa razão (ou talvez para não querer submergir o espectador em pura confusão).

O filme começa com a aposta – levemente adaptada – e, ao invés de ser como descrevi acima, o filme começa com as forças da luz e das trevas gladiando rapidamente (que expoente do Expressionismo alemão!). É uma representação cinematográfica do conflito do filme:

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Na composição dos quadros o bem também está contra o mal. Anjo superior, na esquerda, e o diabo encolhido no canto inferior direito.

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O anjo aponta para baixo, dizendo para o diabo que olhe para Fausto. Este diz que o mais maravilhoso no mundo é o livre arbítrio do homem para escolher entre o bem e o mal. A ênfase muda. No livro a ênfase está na aposta em si: Deus é tão seguro de si que aceita a aposta, e até diz que se Fausto perder, que realmente o leve para longe no inferno. No filme de Murnau, a aposta é entre um demônio e um anjo e não é apenas a alma de Fausto que está em jogo e sim a Terra. Agora o problema não é a salvação da própria alma e sim a do mundo. Murnau lê a história a partir do aspecto do poder de escolha, do livre arbítrio – e nós, espectadores, estamos torcendo pela força moral do personagem, pelo bem de todos nós.

Mefistófeles espalha a peste na cidade:

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Fausto luta para encontrar a cura da peste. Nada dá resultado. “Nenhuma fé nem conhecimento irá nos ajudar”. Queima seus livros e nisso encontra um velho manuscrito de como invocar o diabo. É o seu ultimo recurso de ajudar as pessoas. Em uma cena maravilhosa, evoca Mefistófeles no bosque (aqui a inspiração é Marlowe e não Goethe).

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O engraçado é que ele vem dos céus como uma bola de fogo… e não de baixo, como seria o óbvio imaginar. Fausto se assusta e tenta fugir do demônio… este o persegue até sua torre. Fausto é comovido pela miséria do povo e pela peste que os assola e então assinam o famoso contrato. Aqui o contrato é apenas por 1 dia! 1 dia de teste. Fausto ajuda o povo, mas logo que percebem que ele fez um pacto com o demônio, o acusam e vão atrás dele.

Não restando nada mais, sem povo para ajudar, ele tenta se matar mas Mefisto o impede. O lembra da sua juventude… Da sua vida não vivida.

– Porque procura a morte? Você ainda mal viveu!
– Eu desprezo minha vida!
– A sua vida era apenas o pó e o mofo dos livros! O prazer é tudo!
– Sou muito velho!

A palavra aqui é importante. Ressalta na tela. É o que tenta a Fausto.

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Então Mefisto o rejuvenesce, aprisionando sua imagem de velho em um espelho mágico.

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(Alias, que Mefistófeles!!)

Fausto, jovem, quer experimentar os prazeres da vida. Mefistófeles assume a imagem de um bon-vivant estranho, parecendo um Drácula clichê, e no seu tapete mágico, voam mundo afora (aliás, é bem parecida à história de Aladin, não? um ser que cumpre os desejos do protagonista e ainda voa em um tapete?)

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Essa cena deles voando pela maquete é sensacional… Vão até a Italia demonstrar seu poder… A ponto de dormir com uma duquesa italiana, Fausto é lembrado do dia teste e termina por ceder, assinando o contrato por toda a eternidade. (por um momento de tesão)

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Na próxima cena Fausto já provou de todos os prazeres da vida. Mesmo assim está insatisfeito. Nada o apetece. Quer então ir para casa. É páscoa e lá ele conhece Gretchen (Margarida) e ele a deseja. Mefisto arranja tudo para que eles fiquem juntos e aqui acho que, infelizmente, o filme perdeu um pouco de seu rumo. Acompanhamos o cortejo de Fausto e todos os arranjos que Mefisto tem que fazer para conseguir Gretchen e etc…

Eles ficam juntos. Mefisto faz com que os 2 sejam pegos e arruina tudo para Fausto. Mata o irmão de Gretchen e incrimina a Fausto. Este foge. Gretchen, como no livro de Goethe, perde irmão, mãe e filho… E em uma cena linda, de desespero, ela grita pelo nome do amado. O grito ecoa até Fausto… Ele e Mefisto vão até ela. Vê que ela foi condenada à morte pela morte de seu filho e se arrepende do seu trato: “Maldita seja a ilusão da juventude!” – logo Mefisto devolve a velhice à Fausto e este fica irreconhecível para Gretchen. Fausto pede perdão por seus pecados… e nada. Ela é colocada na fogueira. Ele grita seu nome… Ela escuta o amado… E em um momento de desespero ele pula na fogueira com ela e os dois queimam juntos. Sobem até o céu…

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Então o diabo vai com o contrato para reclamar a alma e o anjo o impede:

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– Eu reivindico a aposta
– Uma palavra quebra o pacto!
– Qual é a palavra?
– A palavra que ressoa alegremente por todo o universo, a palavra que apazigua toda a dor e aflição, a palavra que expia toda a culpa humana, a palavra eterna. Conhece-a?!
– Qual é a palavra?


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O contrato é queimado… e Fim.
Uma palavra seduziu a Fausto, e outra o redimiu. Uma belíssima idéia.

Fausto de Jan Svankmajer! Esse sim é um quebra-cabeças e é baseada nas obras de Marlowe e de Goethe.

Este Fausto se passa nos dias de hoje (nos dias de então, 1994) e nosso personagem não tem nome. É um homem comum que sai do metrô e, fora do metrô 2 personagens estranhos estão entregando folhetos para todos com um mapa desenhado.

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Nosso protagonista pega o mapa e leva ele pra casa (ou ignora o mapa e entregam o mapa por correio no apartamento dele, não me lembro). Mas enfim, esse filme tem tantas, mas tantas, cenas cheias de simbolismo que eu realmente não me creio capaz de analisar uma por uma. Acho que esse filme poderia ser um post a parte, mas mais pelo simbolismo do que pelo filme em si. O filme tem uma linguagem que beira a do sonho. Ccreio que todos entendem (ou reconhecem) a linguagem de um sonho: é extremamente pessoal, embriagante, com conexões fantásticas e muitas vezes sem um sentido aparente… Mas! O filme sugere múltiplos sentidos. Os eventos são tão vagos que se você não leu ambos Faustos, é difícil entendê-lo. Eu realmente não sei se o entendi em sua inteireza.

Enfim, vou tentar resumir a trama geral, sem adentrar no simbolismo de cada cena. Retomando: O protagonista é atraído por meios estranhos, que sugeriam a ele ser algum tipo de magia negra, para o lugar que o mapa apontava. Ao chegar no lugar, um homem sai correndo de lá, como se estivesse fugindo. Entra em um prédio aparentemente abandonado e por uma passagem subterrânea entra em um quarto, um camarim, e se pinta o rosto e veste um manto. Se maquia e põe uma peruca e entra no personagem: é Fausto!..

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e do nada toma uma cerveja!.. (?) A luz vermelha pisca e ele vai até o teatro. O caminho até o palco é povoado por personagens humanos e por bonecos de madeira, ventríloquos. Ele vê a platéia cheia e se assusta. De repente rasga a tela do cenário e atrás da tela está uma catedral gótica. O personagem do Teatro ultrapassa seu meio de expressão. Então ele adentra nessas ruínas e termina em um laboratório de um alquimista. É como se ele entrasse no personagem de Marlowe e logo no de Goethe. Após criar um homúnculo (que tem o seu rosto)

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através de um papel escrito e falhar, um teatro de marionetes se arma… Cenas assim, sem aparente conexão, é que constrói o filme. Logo, os dois personagens estranhos que lhe deram o mapa lhe dão os materiais para conjurar o diabo. Ele conjura Mefistófeles. Mefistófeles aparece e é igual a Fausto.

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Eles tem o dialogo genial de Marlowe que citei acima (foi uma surpresa ver isso no filme após ter escrito a parte de Marlowe acima!). Depois de conjurar, as coisas começam a se misturar. Os meios e as diferentes obras interagem.

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Fausto e o diabo saem para a rua… Coisas estranhas acontecem… Ele re-encontra os 2 homens estranhos que lhe entregaram o mapa. Junto aparece um velho com uma perna cortada. Parece uma espiral de eventos bizarros com elementos das obras de Marlowe e Goethe… Enfim, os dois assinam o contrato com sangue também e no final ele não quer cumprir a promessa e ir para o inferno O diabo vai atrás dele.

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Então ele queima o roteiro e foge do prédio/teatro… e na saída do prédio, assim como com ele, outro homem está a entrar com o mapa em mãos… Correndo para fora ele é atropelado pelo mesmo carro que quase o atropelou quando estava chegando.

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Seu tempo acabou. O mesmo velho bizarro de antes que fugia com uma perna agora corta a perna dele…

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Outro ciclo se inicia, com outro protagonista… e Fim.

Agora vamos para a última adaptação feita para o cinema: Fausto de Sokurov, feito em 2011. Também, como a de Murnau, é baseada na primeira parte do Fausto de Goethe. O filme começa com Estrelas… Nuvens…. E então um espelho no céu…

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Um pano voa e um estranho movimento de câmera nos leva à cidade de Fausto. Bem diferente do começo de Murnau, com a luz gladiando as trevas! Já podemos, a partir dessa introdução, entrever que o enfoque não é o Bem vs. Mal e sim Você mesmo, o reflexo no espelho. O primeiro plano no estúdio de Fausto é de um pênis morto. Logo, um coração dissecado.

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Representações de dois princípios diferentes no homem. Wagner interpela seu mestre:

– Você falou tanto sobre a estrutura do organismo humano… mas não disse uma palavra sobre a alma.
– Porque não a encontrei.
– Onde poderia buscar a alma?

O filme inteiro tem diálogos como este, pequenos e geniais, e quase que ocultos. As cenas são tão volumosas que é difícil seguir o fio dos diálogos. São quase desconexos. Fausto entra em uma jornada em busca de si mesmo. Em busca de um sentido. Não é uma aposta entre Deus e o Diabo que move a história no filme e sim a própria inquietude de Fausto. Porém o diretor não separa completamente as coisas. Fausto diz:

– O deus que mora no meu peito, que pode agitar profundamente meu ânimo, e impera sobre minhas forças, fora de mim não pode nada.

Podemos dizer que não passa de uma figura de linguagem, de sua insatisfação com as ciências e com a vida. Mas mantém o caráter divino: ou seja, o de que tem forças maiores do que ele em jogo, porém, não são figuras toda-poderosas situadas no espaço-tempo. Essa ambiguidade percorre o filme todo. Tem um pé na “realidade” e um no “fantástico”. Como em um diálogo com o pai (personagem que não existe em nenhuma das versões do Fausto), este lhe diz a Fausto:

– Não tenho nem o dinheiro nem o sentido da vida para dar.

São temas mundanos e ao mesmo tempo espirituais e filosóficos. E concordo com o autor: os dois tem que andar juntos.

Logo, o encontro com o demônio. Aqui isso se dá porque Fausto precisa de dinheiro e nada mais. O que o pai lhe negou, será que o diabo irá proporcionar? O diabo é um comerciante. Sokurov brinca com os elementos que são levados à sério em outros textos, outorgando-lhes um papel nada importante: Mauricio Muller (Mefistófeles) tem até a pedra filosofal em seu estoque e ela não tem valor nenhum…

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Como Goethe diz em seu Fausto (algo assim):

– Mesmo que você tivesse a pedra filosofal, ainda lhe faltaria o filósofo.

Esse primeiro contrato Mefisto brinca sobre assinar em sangue e diz que não é necessário. Em outras partes do filme, vemos as explicações científicas anulando o poder da superstição – era uma época de transição, época em que o conhecimento cientifico começou a ter importância sobre a religiosa.

– Conte-nos sobre o cometa que está passando (ou algo assim).
– O cometa é uma bola de gás.
– Um peido então!

Porém, a mentalidade bruta de um taberneiro ainda não parecia pronta para tanto. Comparando com a obra de Goethe, ainda temos as linhas gerais: Mefisto proporciona o encontro com Margarida e toda a história ocorre como na obra. Porém, nada romanticamente como no filme de Murnau ou na obra de Goethe. Aqui as personagens são mais frias. Mais verossímeis para o que hoje consideraríamos um lugar assolado pela Peste. Eu diria que vai mais além da atmosfera de O Sétimo Selo…

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O formato da tela é curioso: o antigo 4:3. A câmera, as vezes, distorcida. São elementos que tem um objetivo. Aqui assumo minha falha… Porque não sei realmente o que o autor quis com esses elementos. Não são meramente estéticos. A sujeira. A textura. Posso falar do efeito que produziu em mim: A câmera se mexe como se estivesse embriagada. E eu acho possível que esse era seu objetivo: nos embriagar, mesmo que fosse com a tontura. Porque, querendo ou não, esse estilo empregado por Sokurov produz uma forte impressão. Negativa ou positiva. Duvido que alguém que tenha visto o filme não se lembre dos movimentos de câmera e suas distorções. Os ambientes são sujos, labirínticos e asfixiantes. É uma maneira cinematográfica de trazer o espectador para onde ele quer: onde nossas percepções sejam abertas para essas impressões e que o filme como um todo nos impacte. É uma experiência. Ainda por cima embriagante. Ressalto esse momento onde Margarida fica sabendo que Fausto matou seu irmão:

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(Indo direto para o final) Fausto assina finalmente um contrato com sangue para ter Margarida… O outro era meramente uma penhora. A partir daqui o filme é inteiramente onírico. Por um túnel secreto Mefistófeles o leva para um lugar rochoso e estranho. Encontra Margarida em um lago de beleza extraordinária e juntos afundam na agua.

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De repente estão na casa da mãe e umas criaturas estranhas fazem parte do cenário. É como se não bastasse as tragédias, a morte tomou conta do lugar. E meu Deus como Sokurov consegue criar essa atmosfera!

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Logo Mefistófeles o leva para a beira de um rio, onde encontra Valentim, grato por ter morrido. Fausto vai se conscientizando de certas coisas. Então se dão com um Geiser natural. Um caldeirão natural. Fausto fica maravilhado.

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De repente ambos tem uma roupagem diferente (bíblica talvez?) e Fausto apedreja Mefistófeles, como Caim matou Abel. Fausto diz:

– Acabou. Como se nunca tivesse acontecido. “Acabou”, que palavra estúpida.

Do céu, uma voz, acho que é a de Margarida, pergunta para Fausto:

– Para onde vais?
– Para lá! Uma e outra vez!

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Do monte rochoso, Fausto corre para uma paisagem de gelo. Lindo. E você sai do filme quase que sem ter entendido nada… Mas não podemos negar seu impacto. Como nos diz o dono da taverna sobre Fausto, respondendo à Mefistófeles:

– Ele perdeu o senso da vida…
– Precisa de vinho.

O filme é inegavelmente embriagante, porém, sem o gosto de um bom vinho.

Em Marlowe, temos um Fausto que deseja o saber e o poder. A fama e a glória. É uma personificação desse desejo. Vende a alma para isso. Aqui não há redenção. Mesmo se arrependendo, ele é levado pelo diabo. Já em Goethe, ele é pego em uma aposta entre duas forças. É vítima de um certo destino. Não é o único agente de sua tragédia. Mesmo assim, ele cede ao diabo e seu principal desejo é o prazer. E na segunda parte do romance, eu diria, é o poder – a conquista sobre a natureza. Ele é redimido no final, pela interseção de Margarida e artimanha dos Anjos… e é levado aos céus. Goethe parece querer, através de sua obra, redimir o Fausto de Marlowe. Claramente que não é uma continuidade… Mas uma re-leitura. Uma nova interpretação da lenda. Um novo sopro de vida no mito. Até hoje parece que é o sopro definitivo (até onde eu sei). O que os cineastas contribuíram para o Fausto?

No filme de Murnau, Fausto secretamente carrega o fardo de salvar a terra das forças do mal. A terra está em jogo em uma aposta entre um anjo representando o Bem e o diabo o Mal. O amor de Fausto por Gretchen o salva… por uma regra secreta que o diabo não sabia. É um filme com um final feliz, quase hollywoodiano nesse sentido, mas foi feito por um gigante do cinema que não tem medo de finais tristes (vide The Last Laugh). É uma adaptação do final de Goethe. O diabo é enganado pelo anjo por uma cláusula secreta. Quem disse que o Bem é inteiramente sincero? O filme está muito mais preocupado em plasmar a dicotomia plasticamente do que em entregar uma trama nova. É um filme que pegou uma história complexa e conseguiu contar visualmente. Podemos tirar os diálogos tranquilamente que iremos entender o filme e a historia mesmo assim e ainda mais sentir, pelas imagens que o diretor criou, a luta entre o bem e o mal pela qual o mundo dependia. O filme é de 1926. Há 10 anos o mundo era assolado por uma guerra mundial e em menos de 10 ele ia entrar em uma guerra mais devastadora ainda. É uma historia atual. Murnau, ao transpor o peso do drama a nível mundial, coloca a responsabilidade do indivíduo em evidência. Ele está dizendo: “Olhe bem! Depende de você!” Ainda mais para o povo alemão. Já o final, pode se dizer que é otimista. Fausto ainda perece na fogueira com a amada, mas sua alma é redimida. Como vemos a alma subir aos céus, podemos pensar que é um final feliz, mas ele queimou vivo! Pessoalmente, considero este filme uma feliz adaptação, pois nos entrega a história cinematograficamente de um jeito magistral e vislumbramos a superfície da mitologia do Fausto. Porém não entramos em sua profundidade… Aliás, o diretor cria a sua própria, para se dirigir ao homem de então. Não entramos no que significa pactuar com o diabo. Apenas sabemos que se o diabo ganhar, o mundo perde.

O Fausto de Svankmajer chega a ser uma comédia sinistra. Em seu filme qualquer um pode ser Fausto. O homem que se propor a se aventurar e seguir o destino que o mapa aponta, este viverá um papel nas obras de Fausto – viverá um ator em uma peça baseada na obra de Marlowe e viverá um alquimista da obra de Goethe. Fausto aqui é um papel a ser vivido e experimentado. As coisas se misturam. Estão enredadas em uma teia de idas e vindas de elementos de diversas fontes, controladas por uma mão que dirige o teatro de marionete e o filme todo. O filme em si é misterioso e engraçado. É bizarro. É como se ao nos aventurarmos em conhecer a mitologia de Fausto, todos os elementos se misturam e participam. Novos e velhos. O dia a dia se mistura com essa ficção absurda até o ponto de você não saber quem é você. Você é Fausto. Porém, quando o assunto fica sério e o Diabo vem cobrar o que lhe é devido, fugimos. Estamos muito mais confortáveis com nossa vida pacata. Quem quer saber de um pacto com o diabo? O que isso significa hoje em dia? Isso ainda tem algum valor? Vale a pena ser pensado? O protagonista foge e termina morrendo, atropelado por um carro vermelho (o diabo?) e tem sua perna cortada por um velho… que o próximo Fausto vai encontrar e achar bizarro… e o ciclo se repetirá. Svankmajer parece nos dizer que Fausto é uma aventura que todos nós podemos viver. Mas que não a entenderemos se não a levarmos a sério. O protagonista, dentro da aventura, entrava e saia dos diferentes personagens, tomava cerveja e se distraia… Não estava atento. Apenas vivia o que lhe era dado. Até não querer mais. Mas… aí é tarde demais. E o diabo (seu outro Eu como o filme nos indica) o pegou. Acho que Svankmajer nos aponta exatamente isso: viva o Fausto. Entre e saia da pele dele mas o faça com seriedade pois sua alma está em jogo. Ao contrário de Murnau, não é nenhuma batalha entre o bem e o mal e o mundo não está sob ameaça, apenas você. Ele devolve Fausto para o mundo interior de cada um – entrelaçando e despedaçando elementos de ambas as obras.

Sokurov no entanto… nos deixa (quase) boiando. Este Fausto é mais visceral. Parece mais ligado ao problema Espírito-Matéria do que os outros. A estética do filme nos mantém no chão. Nos leva dos céus para a terra e ficamos lá. No barro. Na matéria. Não somos elevados às alturas por nenhum diálogo filosófico. Eles até tem este cunho mas não tem a extensão para alcançar a profundidade… Também o filme não precisa disso. O diretor se desfez deles. Se não houvesse legendas eu duvido que conseguiria distinguir bem o dialogo porque as cenas são propositalmente saturadas de elementos audiovisuais. Nossa experiência da terra era mais importante. Que pudéssemos quase que sentir os cheiros e quase tocar as paredes foi o meio empregado para entrarmos no Fausto. Neste filme os desejos de Fausto são simples: primeiro quer dinheiro para comer e viver e no final quer “ter” a Margarida. Maurice Muller (Mephisto) não aposta nada com Deus ou com um anjo. Nada está em jogo. A aventura, acredito eu, parte do “deus em seu peito”. Aquilo que agita seus ânimos e domina suas forças. É a busca desse deus. E é a necessidade de dinheiro que o leva a entrar em contato com forças obscuras e depois a se apaixonar por uma mulher linda e angelical, que ele termina corrompendo. É estranho porque não consigo pensar com clareza ao falar da trama desse filme. Sim posso seguir cena a cena de onde a onde os personagens vão, mas entender o que se passa em suas cabeças é realmente difícil. As transformações são subentendidas e sutis. Não temos tempo para respirar. O filme nos engole em sua atmosfera e vivemos um sonho/pesadelo. No final do filme certas perguntas ficam com nós: para onde é “lá” que ele diz estar indo? O que aconteceu com ele ao observar o Geiser natural? Que realização foi essa que não foi devidamente compartilhada com o espectador? Sinceramente tenho uma interpretação sobre esse final, mas não estou 100% firme sobre ela porque este filme é a última parte de uma Tetralogia sobre o Poder! Então, quando o filme terminou e vi isso escrito… Qualquer tentativa de leitura foi meio que em vão porque já tinha um tema pré-definido pelo qual o espectador poderia tentar se guiar. Mesmo assim confesso que pensando em termos de “Poder” não consigo me nortear por essa temática… Talvez a Glória, como ressaltado no filme de Murnau? Talvez até esteja relacionada com a segunda parte da obra de Goethe mas esta não aparece no filme, então descarto essa hipótese. Logo, meu próximo post vai ser sobre a Tetralogia do Poder de Sokurov e ver se algo faz sentido.

É curioso que o fato de Fausto ser um alquimista seja meramente citado nesses filmes. É ressaltado apenas como pano de fundo, como um aspecto caricato, do velho que quer transformar metal comum em ouro. A alquimia é a chave mestra para a obra de Goethe (partes 1 e 2). No filme de Murnau só é ressaltado esse aspecto caricaturesco. No de Svankmajer faz parte da teia de elementos e o protagonista até faz um homúnculo com sua própria cara… mas fica por aí. No Fausto de Sokurov, ele chega a sugerir que ele mal sabia o cheiro do ouro… Ele é um alquimista também, mas pelo menos Sokurov diz que não tem nada a ver com o ouro, com a idéia comum do alquimista. Também o homúnculo aparece, criado por Wagner, seu aprendiz que superou seu mestre – este se desviou para outros problemas e Wagner virou um alquimista… e ficamos por aí também. Talvez sugira algo… Se sim, não o captei.

Outro elemento importantíssimo, que também está em Marlowe (rapidamente) e é chave em Goethe é a figura de Helena. Em Murnau ela serve de mera isca para o que os prazeres representam. Em Svankmajer realmente não lembro se ela aparece… e se aparece é um diabo que se veste como ela para seduzir o protagonista e desvirtuá-lo de seu arrependimento. E em Sokurov ela realmente não aparece, mas parece que Margarida assume seu papel. Helena não estando presente… é o mesmo que não usar a segunda parte da obra de Goethe.

Logo, com todos os autores limitando-se à Primeira Parte da obra… chegamos a entender a ausência de Helena e a aparente falta de inteireza. O Fausto de Goethe, a obra mais usada nessas adaptações, sem a 2a parte, é um Fausto incompleto. Sem querer desmerecer nenhuma dessas adaptações – adorei todas (principalmente a de Murnau por sua genialidade) – nenhuma delas trouxe um sopro novo ao mito.

Mas enfim!
Agora, quero ler o Doutor Faustus de Thomas Mann.

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