A Bruxa

Estou um pouco aturdido com uns posts um pouco mais ambiciosos mas, hoje vi A Bruxa (The Witch) lançado no ano passado, cuja ampla aparição em sites de cinema e nas poucas redes sociais que frequento chamou a atenção. Mas já devia ter aprendido que relações públicas e um bom trailer não é sinônimo de um bom filme. (spoilers abaixo!)

“A Bruxa – um conto folclórico da Nova Inglaterra” conta a história de uma família religiosa que deixa a Inglaterra para a Nova Inglaterra para se assentar num fim de mundo, longe da civilização, no meio da floresta, e com poucos recursos para sobreviver. A família é composta pelo Pai (Will), Mãe (Kate) e seus 5 filhos – Caleb, Thomasin, os gêmeos Mercy e Jonas e o bebê Sam. Uma bruxa que mora no bosque que rodeia a fazenda sequestra o bebê, debaixo do nariz de Thomasin. A pequena Thomasin mente dizendo que um lobo o levou. Porém vemos que o bebê foi realmente devorado por uma bruxa velha no meio do bosque. Já sabemos logo no começo do filme que existe mesmo a bruxa e que o bebê foi morto.

Então acompanhamos essa família de “brutos” ignorantes, quase incestuosos, e religiosos degenerarem em desconfiança, mentirinhas e arrependimentos perante Deus. No meio do filme, Caleb e Thomasin ‘fogem’ com o cavalo e o rifle e se perdem no bosque. Caleb encontra a casa da bruxa e esta o beija e o atrai para si. Mãe e Pai quase enlouquecem mas Caleb retorna – Thomasin o encontra ali perto, nú, pálido e fora de si. Numa cena a la “O Exorcista”, todos estão reunidos ao redor da cama, oram, brigam e se acusam. Os gêmeos acusam a Thomasin de ser bruxa. Ela acusa eles. Os Pais ficam fora de si… Caleb acorda e vomita uma maça e delira, vê Jesus e então morre. Tudo indica que os gêmeos estão possuídos também pois não conseguem rezar e conversam com o carneiro “Black Phillip”.

Agora os pais tem certeza que tem bruxaria envolvida e o Pai então prende seus filhos restantes com o carneiro “Black Phillip” no celeiro. A noite, a bruxa vem, mata a ovelha branca e as crianças gritam de medo. A mãe tem uma visão bizarra dos filhos que morreram e dá de mamar ao bebê (que nos revela o diretor ser um corvo bicando sua teta). De manhã o Pai acorda e vai ver os filhos presos. O celeiro está destruído, com sangue p/ todos os lados e apenas Thomasin viva. De repente o carneiro o ataca com seu chifre e o mata. A mãe também sai de casa e vendo a cena ataca sua própria filha acusando-a de bruxaria. Com uma machadinha ao alcance, a filhinha mata a própria mãe.

Sem saber o que fazer, ela fala com o carneiro… e faz um pacto. O filme termina com ela se reunindo a outras bruxas em um ritual sinistro. Ela voa… e ri. Fim.

Confesso que assisti o filme porque meu irmão me disse que o tinha visto e que “sem uma cena que aparece nos 10 primeiros minutos, o filme seria bem melhor” – foi um desafiozinho, um convite para discutir um pouquinho que fosse da estrutura de um filme. Quando terminei de ver o filme lhe perguntei “era a cena da bruxa matando o bebê?” – Ele me respondeu “Era!” – Realmente, o filme poderia ter um pouco mais de mistério, não revelando a bruxa ali bem no começo. Desde que ela apareceu já no começo… o único que podemos fazer é esperar que ela aparecesse de novo. Nós como espectadores ficamos numa situação pouco interessante… Porque não há mais mistério. Fora algumas dicas aqui e ali de que Thomasin fosse uma bruxa, ou que os gêmeos e o carneiro Black Phillip também fossem amaldiçoados ou algo do tipo, não teve muito mais da história que me prendeu. O final com Thomasin virando uma bruxa nos faz pensar se ela realmente já não era uma e que causou tudo isso… Ela poderia estar contando a verdade ali no começo, brincando com sua irmãzinha. Mesmo se essa hipótese for real, que ela era A Bruxa desde o começo, o que é difícil de acreditar porque estamos com ela quase todo o tempo, isso não adiciona muito pro filme. Sim, no final nos é revelado que ela É uma Bruxa.

Voltando ao porque que quis ver o filme, a aparição da Bruxa no começo realmente levanta perguntas. O diretor teve a opção de ocultar ou mostrar essa cena. Mostrando a bruxa logo no começo, fica claro que existe esse ser bizarro na floresta que devora bebês, não deixando nenhuma dúvida (apesar das tentativas do autor de gerar elas, implicando os filhos e o carneiro com a bruxaria) de que o mal do filme é ela e pronto. Ocultando, ficaríamos numa grande dúvida se essa bruxa era real. As dúvidas sobre Thomasin teriam mais substância. Os ‘efeitos’ sobrenaturais seriam fortes. O universo do filme seria menos definido e portanto mais propenso a nossa própria participação para criá-lo. Porém, o autor escolheu pela primeira opção… Porque? Acredito que apenas optou pelo Terror ao invés do Mistério ou Suspense… Optou em apresentar cenas fortes, muito bem feitas aliás – o clima do filme é inegavelmente assustador – ao invés de uma narrativa forte. O que eu pessoalmente acho uma pena… pois não é uma questão de ter um ou outro… simplesmente faltou o outro.

Até vi em outros reviews sobre o terror psicológico da família atacando um ao outro e vivendo o medo e etc… Mas não o achei tão forte assim. Nem a religiosidade, nem os pecados, nem a “corrupção”. O que daria até para pensar que a famosa Culpa Religiosa é que exerce a pressão neles e etc… Não sei se tivemos tempo suficiente com a família para entender essa pressão, ou ao menos sentir ela como real. A religiosidade é muito superficial… Só uma meia-máscara escolhida pelo diretor/roteirista para expor uma hipocrisia já exposta. Ou seja, não há ambiguidade real… A impressão que ficou em mim é que o diretor não conhece um ambiente religioso, opressor ou não.

Se é realmente um “Conto folclórico”… É o conto de uma bruxa que come um bebê, enlouquecendo e depois matando essa família e “seduz” a única sobrevivente para ser bruxa. O que pode nos levar a pensar em outro foco, no da figura universal da Bruxa (que é o título do filme)… talvez ofereça algum insight nessa personagem universal… Na bruxa que vivia adormecida em Thomasin… Nesse chamado da natureza… (corrupta? [talvez isso seja uma conclusão que se dá pra tirar do filme que é mais puritana do que os personagens que supostamente se criticam.])

(Termino meu post como o filme.)

P.S.: Escrevi esse post em aprox. 2 horas após ver o filme… E hoje acordei com a impressão de ter cometido alguma injustiça. Porém ao re-ler o post, apenas vejo falhas minhas na crueza que descrevi os eventos gerais do filme. Porém em relação ao filme como um todo, acredito estar sendo fiel. Aliás… Acredito que na verdade o filme não chama tanta atenção, não oferece muito material para reflexão sobre a personagem universal da Bruxa…

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